Mostrar mensagens com a etiqueta pessoa. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta pessoa. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

A vida luta contra a vingança

Muhìnlele ikuhu,
ekumi ennawana ekhotto ni ikuhu.
Não te vingues,
a vida luta contra a vingança.


Introdução

Depois de vários anos de luta armada, Moçambique atingiu a independência no dia 25 de Junho de 1975 A.D. Nem passou um mês daquele fatídico dia, é já a paz celebrada estava de novo em perigo. Efectivamente iniciou logo a acção da oposição em primeiro lugar com a informação através da Radio Kusupa e em seguida com as armas. Era o início da segunda guerra, uma longa guerra civil que se alastrou em todo o país, semeando dores, vítimas, vinganças e destruições em toda a parte. Só depois de 17 anos de lutas intestinas, no dia 4 de Outubro de 1992, a guerra civil acabou com os acordos de paz assinados em Roma.
A preocupação principal da opinião pública nacional e internacional, sobretudo das organizações humanitárias, era como fazer a passagem do clima da guerra, de vinganças ao novo clima de paz, de reconciliação e de perdão. Imaginava-se uma transição difícil e acompanhada de actos de vinganças privadas. Graças a Deus, contrariamente à expectativa geral, no Niassa pelo menos, não foram noticiados casos de vinganças, mas a povoação entrou no clima nacional de paz fluidamente e com vontade firme de manter a paz. Emblemático o seguinte caso. No primeiro conselho paroquial depois dos acordos de paz apresentaram-se todos os animadores das comunidades das duas zonas bélicas. Dentre as comunidades de zona Renamo veio também um animador que tinha participado a um dos últimos ataques à vila de Maúa, durante o qual foram assassinadas várias mulheres com as crianças de colo. Reconhecido pelos animadores da vila, em privado foi chamado e em tom de paz e de respeito foi aconselhado a deixar a reunião paroquial até ao próximo conselho.
Todos, sobretudo nós estrangeiros, nos admiramos em constatar a serenidade e fluidade do processo à normalização. Por esta razão quis indagar bem o que pensa a biosofia e biosfera acerca da vingança e do perdão, descobrir as razões do fundo que motivaram e guiaram o povo xirima ao regresso pacífico e incruento à vida da paz. Qual terá sido o movente principal? A tradição só, a presença da fé cristã sobretudo? Ou as duas juntas?
Já nas primeiras semanas de paz tive a oportunidade de descobrir uma razão básica. Chegando nas bases da Renamo reparei que os comandantes macua não eram equipados como os outros que provinham das províncias do Sul. Um destes últimos deu-me a seguinte explicação: “Padre, os Macua não amam a guerra nem sabem combater na guerra, são alérgicos aos conflitos violentos e cruentos, preferem sentar-se no alpendre das autoridades tradicionais e lá discutirem, dialogarem até atingir o alvo da paz”. Isto fez-me lembrar um comício do Presidente Samora Machel em Cuamba, nos primeiros anos da independência, onde expressou o mesmo juízo do comandante da Renamo para com o povo macua, afirmando que só nas zonas macua a Frelimo não tinha obtido um apoio incondicionado na guerra de libertação.
Era já uma boa pista que porém merecia ser bem analisada. Foi o que fiz, dando aos pesquisadores do Centro o tema: winlela ikuhu/ikukuttua em conformidade com a biosofia e biosfera xirima. Apresento aqui os tópicos principais.


1- A lei do talhão
A lei do talhão é bem conhecida e até lapidarmente formulada no seguintes textos e em parte também psicologicamente analisada: o vingador procura de apagar, satisfazer o seu coração, libertar-se do peso da ofensa que lhe rói o coração. Até a biosofia e biosfera xirima reconhece que às vezes a vingança é fruto de premeditação e programação bem consciente, enquanto que outras vezes é uma explosão instintiva, impulsiva e incontrolada.

Winlela ikuhu mpuwa mwa makholo ahu
ti ottikixa matxipu:
oruwaniwa olelo onattikiwa mweri womalo.
omaniwa olelo onahokoloxera esimana ya omalo.
Wotheriwa olelo onahokoloxera omalo.
Vingar-se para os nossos antepassados é devolver a ofensa recebida:
a pessoa insultada hoje, devolverá o mesmo no próximo mês;
se batida hoje, devolverá o mesmo na próxima semana;
se acusada hoje, devolverá o mesmo amanhã.

Mukhw’á apwexá nitho ná,
ompwexeke nitho nawe.
Se o teu parente te partir um olho,
tu por tua vez parte-lhe o seu.

Winlela ikuhu maino:
nakhuleya nimosa, nnomelela tho nikina.
ti ottikixa isikula/matxipo.
ti wemexa malaxi owatteya òviriwaka.
ti ephatxe enottikixeraniwa.
Vingar-se é como os dentes:
basta cair um que surge logo um outro,
é reverter/inverter a inclinação do capim,
é interpor capim impedindo a passagem,
é como a peneirinha:
devolve-se alternativamente.

Olelo kòhopahulani, omalo ti nyuwo.
Hoje fui eu que te ofendi, amanhã será você.

Ikuhu ori otxipiha mphito khuluwi,
ti omaliha murima khuluwi.
A vingança é fazer desaparecer o trilho de vez,
é apagar o coração completamente.

Winlela ikuku ti opaka itthu sonanara mwayini.
Vingar-se é fazer coisas más de propósito.

Ikuhu khasinarumaniwa,
khasinalaihaniwa nihiku,
Ikuhu sinapakiwa motutuxa.
As vinganças não são mandadas/programadas,
nem se combina o seu dia, realizam-se de repente.


2- Nakuhu -- O vingador
A biosofia e biosfera xirima não conhece só a lei do talhão, conhece também a pessoa vingadora, as suas acções maléficas, o seu comportamento psicológico. Tratando-se de uma atitude perigosa na vida social da aldeia, os textos demoram bastante na descrição dos aspectos negativos e das consequências nefastas. Em síntese, a conotação do vingativo é aos olhos da biosofia e biosfera xirima é clara e categórica: ele é um feiticeiro, a personificação e incarnação do feiticeiro.

Makholo annèra:
nakuhu wuma murima,
mukhwiri onnèra hiho,
khanamòva Muluku.
Nakuhu kharino ikharari,
khanamòna ikwasuni,
ori nanrima/nahatxe,
khanathelaneya, onosempwa,
khanahaya w’anene,
t`owittottopa, t`owisunnuwiha,
ti nemwanomwano,
t`owùluma mekhá,
t’òkhuveya nlumi,
khanatxa ni akhw’awe,
ohinìwa yoleliwa,
onakhwa ni wereriwa,
khanóve etthu,
khanaphukeleya mulattu.
Os antepassados dizem:
o vingador é um perverso,
o feiticeiro faz assim,
pois não tem medo de Deus.
O vingador não tem pena,
não vê o órfão, é invejoso,
não se brinca com ele, evita-se,
não se hospeda na casa alheia,
orgulha-se, é nervoso, é monólogo,
é de língua curta,
não come com o seu próximo,
não ouve o que lhe é dito,
morre sendo tentado,
não tem medo de nada,
o milando dele é insolúvel.

Nakuhu khanattuwala nari khanlevelela,
onlikana ni ole onriha makatxapha a mphakura:
mutthu ole khanamutxa,
orotapanyiwa/orotanyiwa.
O vingador não esquece nem perdoa,
é como aquele que deita cascas de feijão jugo,
não as come, foi provocado.

Ìnlale ikuhu orimwilivela
amalihaka mwinlelo awe
nikhupanyo nawe nari ntokotoko .
Quem se vingou, quis pagar-se,
apagando o seu desejo de vingança,
a ofensa recebida era demais.

Atthu òwinlela ikuhu sakumanelá,
ikhotto khasinamala.
Se os vingativos se encontrarem,
não acabam as lutas entre eles.

Mukwaha wa nakuhu khonìwananeya,
winlela ikuhu onasuwela weyo mekhá.
A viagem do vingativo não se combina,
o plano de se vingar sabes só tu.

Naxariya khanakona mwinli mmosa ni nakuhu;
ephiro ya naxariya khanavira nakuhu,
nakuhu khanahakalala mphironi mwa naxariya.
O justo não dorme na mesma esteira do vingativo;
no caminho do justo não passa
nem se alegra o vingativo,


Efeitos negativos da vingança

Vari ikuhu, yottheka yèmenle’vo.
Onde há vinganças,
a culpa/reato parou aí.

Mpuwa wa makholo winlela ikuhu
khonavaha exariya:
onruha winaniha, munyakunyaku, winlaseya, otapana, orakaliha;
onamwara omusi, ntthoko, onthamwene, murettele velaponi.
Para os antepassados vingar-se não produz justiça,
traz inimizade, barulho, choro, desgraça, aleijamentos;
destrói o parentesco, a amizade, a paz na aldeia.

Winlela ikuhu kahiyene exariya ni murettele,
niwoko kula mutthu onèra: àkitepiha.
Vingar-se não é justiça nem paz,
porque cada um diz:
isto é demais para mim.

Vari ikuhu oyarana khuwavo,
othene ari movelavelani.
Onde há vingança, não há parentesco,
todos estão com sofrimento.

Winlela ikuhu ottharaka murima
t’oriheya atthu:
onawìnlela ikuhu, omwara itthoko.
Vingar-se, escutando o coração,
é perder as pessoas:
quem se vinga, destrói os lares.

Ikuhu wivá ni tho wivaná,
ikuhu murette aya wivaná.
A vingança mata e provoca outras mortes,
o remédio das vinganças produz matanças.

Winleliwe ikuhu yòkhala enakhuma,
siri itapha sa akhwiri,
Onde há vingança, há-de acontecer algo,
são as armadilhas dos feiticeiros.

Vanihukuni winlela ikuhu oxeriha maitho:
nakuhu ahakalalaka nowuma murima,
owinleliwa ikuhu ìkhupanyeraka.
Às vezes a vingança avermelha os olhos:
o vingador a rir sadicamente,
a vítima a lamentar-se.

Ekukuttula ovoreiha murima,
onanariha ekumi yothene ya mutthu.
A vingança faz sofrer o coração,
estraga toda a vida da pessoa.


Imagens da vingança

Ikukuttula ikhove:
ottuwaliha, nto sinòtxeleya.
A vingança é como o sono:
tenta fazer esquecer, mas não consegue.

Ikuhu nsala nnamalela itthu
sikina sùnttaka, sikina simelaka.
A vingança é como a lixeira: aí acabam as coisa;
umas a apodrecer e outras a germinar.

Ikuhu mwithe wa enowa:
wopiha, oluma ni wiva.
A vingança é como a toca da cobra:
é perigosa, morde e mata.

Ikuhu khasinòneya,
nto ovoreya mmurimani,
ntoko nikhala noluttuwa na moro.
As vinganças não se vêem, mas doem no coração
como a brasa ardente do fogo.


3- Vingança e a Justiça judiciária

A biosofia e biosfera não é idealista nem utópica, mas realista e sensata. Mesmo tendo condenado fortemente a pessoa vingativa e as suas acções, sabe muito bem que o coração do mutthu anda os seus próprios caminhos, reconhece as suas fraquezas, por isso do seu realismo matriarcal namúlico tira duas oportunidades para marginar as vinganças e para fazer justiça à vitima da vingança.
Em primeiro lugar, a biosofia e biosfera xirima oferece o caminho judiciário, a ida ao alpendre da autoridade para lá com o diálogo tratar o milando e por fim chegar a uma solução pacífica para o réu e para a vitima. Sobressai nisto a alergia idiosincrásica da biosofia e biosfera xirima para com a guerra, para com os conflitos cruentos, para as soluções individualistas e egoístas, em suma o aspecto fundamental da cultura xirima que sendo cardial, isto é, namúlica matriarcal, lunar e nocturna, opta sempre pela solução que garante a continuação da vida, mesmo depois de umas interrupções trágicas. O alpendre da matriarca e do chefe antes de ser um tribunal, é um lugar sagrado, é um mini-namuli que detêm autoridade e competência suficiente deste e do outro hemisfério para resolver todas as avenças do mutthu. O vingativo usurpa poderes e tarefas alheias sagradas.
Em segundo lugar, a biosofia e biosfera xirima aproveita do rito da iniciação para denunciar e condenar as vinganças, comunicando inúmeros conselhos a todos os iniciandos, castigando fortemente o iniciando já incline à vingança.

Mwene òloka khanìnlela ikuhu muloko awe,
t’onvaha miruku wera atthu ehìnlelaneke.
O rei sábio não se vinga no seu povo,
pelo contrário é ele que aconselha
a não exercer vingança.

Pwaro a mwene t`onamaliha ikuhu s’atthu.
O alpendre do rei é
que acaba as vinganças entre o povo.

Ikuhu mulattu: khonùntta,
nto onimùntta nihiku nle pahi
sinophukiwaya mmutthekoni mwa mwene.
As vinganças são contendas que não apodrecem,
apodrecem só no dia
em que são tratadas no alpendre do chefe.

Watthekeliwá, ohìnlele ikukuttula,
sothesene sinùlummwa w`amwene,
wàseke exariya mmutthekoni pahi.
Se ofendido, não te vingues,
pois tudo se resolve no chefe,
procura a justiça só no tribunal.

Winla ikuhu okhotta wuluma mulattu,
ori wittana exariya,
ikuhu simaleleke khuluwi
mmutthekoni wa mwene.
Vingar-se é negar tratar o milando,
é inimizar-se com a justiça,
as vinganças devem acabar de vez
no tribunal do rei.

Nakuhu onnùpuwela mmurimani mwawe
omaliha mulattu ìnlelaka ikuku,
nto Ikuhu sinnùnnuwiha mulattu,
ti mmutthekoni mwa pwiyamwene ni mwene
sintxipihiwaya’mo sotthekeliwa sothene.
No seu coração o vingador pensa
em acabar o milando com a vingança,
mas a vingança piora o milando,
é no alpendre da matriarca e do rei
que acabam todas as ofensas.

Naxariya khanìnleliwa ikuhu,
nto onnatthara ephiro yowùluma mulattu.
O justo não se vinga
mas segue o caminho de resolver o milando.

Vanìnlelaniwaya ikuhu,
mulattu wòkhala wothe,
nakuhu mulattu awe opisa omala.
Onde há vingança, há também milando,
o milando do vingador demora a acabar.


ikano
Anamwane òwinlela ikuhu annahawa omwalini.
As crianças vingativas sofrem na iniciação.

Winlela ikuhu wikuxa,
ovirikanyiha ikano,
ti ohùluma mulattu mmutthekoni
Vingar-se é orgulho,
é contradizer as normas,
é não tratar o reato no tribunal.

Makholo ahu yànàlela an’aya:
muhiwìnleleni ikuhu yawo anottharattharani.
Os nossos antepassados educavam os seus filhos dizendo:
não deveis vingar-vos naqueles
que vos perseguem.

Makholo yànèra:
muhiwinlele ikuhu amay`inyu
nipele na amay’á ninnamaliha ikuhu.
Os antepassados diziam:
não te vingues na tua mãe,
a mama dela faz acabar a vingança.

Khalai xapi khàpexiwa maitho,
khawakhanle winlela ikuhu, nto olevelelana,
makholo yàri òvilela ni òlevelela.
No passado ao pássaro do mel
não se lhe partiam os olhos:
não havia vingança, mas perdão,
os antepassados suportavam e perdoavam.

Makholo annéra:
olevelelana ni winlela ikuhu
fatari olevelelana kwekwe
Os antepassados afirmam:
entre o perdão e a vingança,
é preferível sempre o perdão recíproco.

Atthu a khalai yànasuwela sa muholo:
ohinlele ikuhu, olevele,
olelo ti miyo kotthekelani, omale ti nyuwo.
Os antepassados sabiam do futuro:
não te vingues, mas perdoa,
pois hoje fui eu que te ofendi,
amanhã serás tu.

Muhìnlele ikuhu,
ekumi ennawana ekhotto ni ikuhu.
Não te vingues,
a vida luta contra a vingança.

Mwatthunaka wunnuwa omutthu womalela,
ikuhu muhiyeke ottai mwekumini mwanyu.
Se quiser crescer até à maturidade,
deixa a vingança longe da sua vida.

Asitith`inyu khanìnleliwa ikuhu,
ari mukhoyi onawerya wotthukani,
nsu naya ninnòpola ni ninnìva wothe.
Os teus pais não devem ser objecto de vingança,
são cordas que conseguem amarrar-te,
a palavra deles pode salvar e também matar.

Muretta khaninleliwa ikuhu,
Mutthu ohitoko omòna, khanìnleliwa ikuhu,
niwoko nlelo khonasuwela murim’awe;
aletto khanìnleliwa ikuhu
niwoko ari anamavira;
naxikhola khonaphwanela omwinlela ikuhu, niwoko orwenle ohusera.
O doente nunca deve ser objecto de vingança.
A pessoa que nunca viste,
não é objecto de vingança,
pois ainda não conheces o seu coração;
não te vingues dos hóspedes, pois são passageiros,
não se deve fazer vinganças no aluno,
porque veio para aprender.

Vatthokoni asitithi ehiwìnlele ikuhu anamwane niwoko khasuwenle etthu.
No lar os pais não se devem vingar nos filhos,
pois não sabem nada.

Ntheli khannalipa ni ikuhu,
niwoko wothelani onàsiwa omusi munyowani.
O casamento não fica sólido com as vinganças, porque no casamento
procura-se nova geração.

Òhitheliwa khanìnleliwa ikuhu,
siso tho mwara a mwanene.
A não casada não é objecto de vingança,
assim também a esposa alheia.

Mwakhalá a ephiro emosa wotothani
muhiwìnleleke ikuhu asikhw’inyu: otapaniha.
Se estiveres na mesma viagem na caça,
não te vingues nos colegas, causa azares.

Wahokoloxeriwá ikuhu,
ohinyonyiwe niwoko waropatxera,
kula etthu eri ni ikuhu saya.
Quando és vitima de uma vingança
não te enerves, porque foste tu a começar:
cada coisa tem a sua vingança.

Otthekeliwe ti mwanene
winlela ikuhu nari olevelelana,
O ofendido é o dono
da vingança como do perdão.

Yohovela kheninleliwa ikuhu,
Ikuhu kheninliwa ohitthekeliwe.
A dúvida não é objecto de vingança,
não se faz vingança sem culpa.

Ikuhu khasinatakihaniwa
niwoko novoreya.
Não se imitam as vinganças,
pois causam sofrimento.


4- Ekuhu ni Muluku/Minepa
Vingança tarefa exclusiva de Deus vingador

A biosofia e biosfera além das duas oportunidades apenas acenadas para marginalizar a chaga das vinganças, apela sobretudo à sua religiosidade e teologia oferecendo assim ao vingativo uma terceira oportunidade e motivação para não se vingar. Julgar segundo justiça e de maneira definitiva e exaustiva é só uma tarefa de Deus, só ele sabe e conhece o coração do mutthu, só ele é víndice absoluto e justo.
Além disso, Deus Namuli, matriarca e genearca da vida, bondoso e generoso, apoia e prefere sempre o caminho do perdão e do diálogo judiciário que os seus intermediários do além e do aquém procuram desenvolver. O vingativo portanto, além de ser fora da lei, arrisca também de ser inimigo de Deus, em outras palavras é um ímpio por contradizer frontalmente o creio e o optimismo básico da teologia matriarcal namúlica, por invadir o tempo e o espaço do futuro que é exclusivamente tempo e espaço de Deus namúlico.

Winlela ikuhu ti ottuwala
wi Muluku ti mphuki mmosaru,
mwanene ettuniya.
Vingar-se é esquecer
que Deus é o único juiz/vingador,
dono do mundo.

Winlela ikuhu ti otthuna owana ekhotto
ni ikhaikhai sa wirimu,
ti omukopela Muluku.
Vingar-se é querer lutar
com as verdades do Céu.
é endividar-se com Deus.

Muluku nakuhú óloka:
khanattuwala etthu,
onnòna sothene sinèreya
ni onathoriha ehuhu yaphiyá.
Deus é víndice justo:
não esquece nada,
vê tudo o que acontece
e julga na altura própria.

Ikuhu sa Muluku khavo onasuwela,
khavo onawerya wemexa nari osempa,
ikukuttula sawe khasintthaweya.
As vinganças de Deus ninguém sabe,
ninguém consegue travá-las nem evitá-las,
sim, das vinganças de Deus não se foge.

Muluku onnasuwela ikuhu sa kula mutthu,
onnawìnlela àttharuxaka mamwene,
ahinalamula phama sene.
Deus conhece as vinganças de cada pessoa,
vinga-se nos reis que não governam bem.

Ale ahinàpankela yorera akhw’aya,
esuweleke wi Muluku onowinlela ikuhu,
àntxereraka mpuh’aya.
Aqueles que não fazem o bem aos colegas,
devem saber que Deus há-de vingá-los
aumentando o gozo deles.

Muluku nakuhu òrera murima ni òloka,
khanamwìnlela ikuhu mutthu òhittheka.
Deus é vingador bondoso e justo,
não se vinga na pessoa inocente.

Òwinleliwa ikuhu pixa murima,
t’onètta ni eparakha ya Muluku,
t’onakhaviheriwa ni minepa,
t’onètta ni atthu.
A vítima de vingança é o bondoso:
anda com a sorte de Deus,
é ajudado pelos espíritos,
por fim anda com a gente.

Ohìnlele ikukuttula,
valaponi watta sorera,
omuroromeleke Muluku Namuli,
makholo arorwana o Namuli:
pixa murima àhòna murima wa enenele.
Não te vingues,
no mundo há muitas coisas boas,
sejas de confiança/fé em Deus Namuli,
os antepassados vieram com ele do Namuli,
o bondoso viu até o coração da formiga.

Winlela ikuhu minepa,
onamwasa nokhw`awe,
minepa khanawananiwa,
mwatthunaka otapana muveheke minepa,
siri miluku sa Muluku Namuli.
Vingar-se dos espíritos
é procurar a própria morte,
contra eles não se luta;
se quiseres ter má sorte, despreza os espíritos,
que são os deusinhos de Deus Namuli.

Minepa khaisininleliwa ikukuttula,
mutholo khonìnleliwa ikuhu,
niwoko ti empa ya minepa.
Os espíritos não são objecto de vingança,
também o Mutholo, porque é a casa dos espíritos.

Munepa onnawerya owínlela ikuhu akumi.
O espírito consegue vingar-se nos vivos.


5- Ekuhu ni Ekristu
Vingança e a Fé cristã
O fenómeno das vinganças, visto em horizonte cristão, recebe condenação definitiva, devido a todo o comportamento de Jesus que sempre perdoou e sempre condenou a vingança: comportamento e ensino que se tornou para os seus discípulos e para a Igreja norma normata normans.
Por um lado Jesus perdoou e exige do seu discípulos o perdão, por outro no fim dos tempos ele será vingador final da história humana e cósmica. A vingança final transcendental não será só teológica mas também cristológica.


Yesu

Yesu khawìnlenle ikukuttula mutthu mmosaru,
nto àhàvekelela àlevelelaka yamukhomenle.
Jesus não se vingou em ninguém,
mas rezou perdoando aos que o crucificaram.

Yesu àhìnleliwa ikukuttuna ni Ayuda
niwoko na evanjelyu awe.
Jesus foi vítima de vingança dos Judeus
por causa do seu evangelho.

Yesu àmwìnlela ikuhu Satana omwako Sinayi:
Satana alokolelaka sawawe,
Yesu àkhulaka sawawe tho.
Jesus vingou-se no Satanás no monte Sinai:
Satanás a falar das suas
e Jesus a contradizer com as suas.

Winlela ikuhu nihittharaka murim’ahu,
nto nihusiho na Yesu,
ti ovarana nyono:
khweli Yesu ànèra:
mwàvekeleleke yawo anopahulani.
Vingar-se não seguindo o nosso coração
mas o ensino de Jesus é abraçar-se/dar-se a mão.
Na verdade Jesus dizia:
perdoai aos que vos afligem.

Yesu t’awòmonle alipa a maronda
mutempuluni mo Yerusalemu,
ìnlelaka ikikuttula ovuwa wa empa ya Muluku.
Jesu expulsou os comerciantes
do templo de Jerusalém,
vingando assim a glória da casa de Deus.

Yesu Kristu nakuhu a exariya
àtthu yènre sorera nari sonanara:
onorowa nihiku nomalihera
owìnlela ikuhu ni wáthorihela
atthu yakhontte malamulo awe,
yawèrenle sonanara asikhw’aya
Jesus Cristo é víndice justo
dos que praticaram o bem e o mal:
há-de vir no último dia a vingar e a julgar
os que negaram os seus mandamentos,
que fizeram mal ao seu próximo.


Ekristu ni Ekereja

Ikukuttyka/ikuhu/ikhunya mpuwa mwekristu
ti etthu yohirera, ti yottheka etokwene,
ti ohirino osivelana/onthamwene/nlevelelo:
mkristu nakuhu khantthara Evanjelyu.
A vigança dentro do cristianismo
é uma coisa feia, é um grave pecado,
é falta de amor/amizade/perdão:
o cristão vingativo não segue o Evangelho.

Wapatisiwá ottuwaleke ikuhu khuluwi,
siriki mwettelo wa satana,
sinavirikana ni mukhalelo wa ekristu..
Se fores baptizado, esquece de vez a vingança,
sendo uma atitude satânica
que contradiz a fé cristã.

Ohìnlela ikuhu, eyo tiyo, olevelelana,
kahiyene wova,
mkristu t’òleva, òwìyeviha ni òvilela:
onimùnnuwihiwa momweneni mwa wirimu.
Não se vingar, isto é, perdoar, não é ter medo,
pois o cristão perdoa, é humilde e paciente:
será exaltado no reino do Céu.

Mukereja khophwanenle winleja ikuhu,
niwoko ti maye/pwiyamwene a ikano sorera:
hatá satana khanawerya
wìnlela ikuhu ekereja,
ti empa ni erutthu ya Yesu.
Na igreja nunca se deve realizar vinganças,
pois é a matriarca de bons conselhos.
Mesmo Satanás não consegue
vingar-se na Igreja,
pois é a casa e o corpo de Jesus.

Olapa nsakramenti nla nnamaliha
ikuhu sothene atthu yùpuwenlaya.
O sacramento da confissão ajuda a acabar
todas as vinganças nas quais se pensou.

Nakuhu Herode mwene owuma murima:
àwínlela ikuhu anamwane o Bethelehemu.
Vingativo foi o cruel rei Herodes:
vingou-se nas crianças de Belém.







terça-feira, 24 de janeiro de 2017

A casa redonda é o Namuli doméstico

Thokola Namuli a vate
atthu anahakalalayano.
A casa redonda é o Namuli doméstico
na qual as pessoas se alegram.

Thokola notxé:
sinnakhuma itthu soreraxa.
A casa redonda é como o ovo,
saem coisas muito boas.


Introdução
Nos primeiros anos de vida missionária visitava as comunidade passando em todas cada dois meses. Celebrava a missa numa comunidade e depois à tarde passava na próxima, onde dormia para fazer o mesmo no dia seguinte. No começo impressionava-me muito o lugar que cada comunidade preparava para eu passar a noite. Sempre marcou a minha atenção constatar o cuidado que cada comunidade punha em oferecer-me um lugar de descanso o mais confortável possível. Punham normalmente à minha disposição a casa mais faraónica que tinham, aquela de 4 águas, bem coberta, raramente sofri insónia por causa dos mosquitos, até reparei neste fenómeno: ao entrar nalgumas casas ouvia-se uma sinfonia sibilante de inúmeros mosquitos que porém lentamente se levantavam do chão, subiam ao telhado e deixavam de sibilar e sobretudo de morder. Deviam os donos dispor de um remédio próprio para isto.
Uma vez, porém foi-me oferecida uma casa especial: era redonda de dois ou três metros de diâmetro, com uma única repartição, bem rebocada de fora e de dentro. Posso afirmar que dormi bem naquela casa, ainda hoje lembro a sua posição, o sol ao descer iluminava-a fazendo vibrar e encandecer o vermelho purpúreo das paredes. O animador que me acompanhava, vendo a minha admiração mista de excitação, tranquilizou-me dizendo para não ter medo, pois era uma casa especial, a antiga casa dos xirima, thokola de nome e, para concluir em glória, citou-me os dois seguintes provérbios:

Thokola Namuli a vate
atthu anahakalalayano.
A casa redonda é o Namuli doméstico
na qual as pessoas se alegram.

Thokola notxé:
sinnakhuma itthu soreraxa.
A casa redonda é como o ovo,
saem coisas muito boas.


1- Thokola: morfologia, terminologia e descrição

Em primeiro lugar é preciso conhecer um bocado a nomenclatura básica da arquitectura xirima. Empa e enupa são os nomes comuns e genéricos para indicar qualquer casa na aldeia.
Para as casas quadradas existe a seguinte distinção: chama-se nipatxa a casa quadrada de duas águas, portanto com duas paredes expostas a chuva e sem varanda, enquanto que exirapi é a casa de 4 águas rodeada de varanda nos quatro lados e assim bem protegida da ventania e da chuva. Actualmente é a arquitectura quadrada que prevalece em toda a parte no horizonte dos xirima.
Na enumeração específica da arquitectura xirima ocupa porém o primeiro lugar a pequena casa redonda que significativamente dispõe de vários sinónimos: thokola, kirukurere, kakamela/kokamela/kukamela, namarenkha e xowa.
Thokola é um substantivo da primeira classe, um derivativo do verbo othokola que significa afiar aguçar, acuminar, afiar, na sua forma neutra passiva othokowa significa estar agudo, afiado. Provavelmente o nome faz lembrar o cone ou a agudez do telhado que por ser uma casa redonda e de só um quarto é mais acentuada e visível. O sentido semelhante tem o sinónimo xowa que significa espada, catana, provavelmente indica como thokola uma casa aguçada.

Thokola nsina na empa makholo yatekaya,
niwoko nothokowa nipatho.
Thokola empa yohithikilanyiwa mpuwani
ni ehirino ejanela,
niwoko mikho sothene sa vate sinnakhala’mo.
Thokola é o nome da casa dos antepassados,
por causa do tecto afiado,
é uma casa redonda
sem repartições/quartos e sem janelas,
pois todos os segredos domésticos
encontram-se lá dentro.

Thokola alepeleliwaka onimwirukurera,
ntoko niviri na ejinga.
Quando se traça a casa redonda,
escreve-se um círculo como o da bicicleta.

Ipatho sa thokola sinnaweha nipuro nimosaru,
mithala sothene sinnavara muteko mmosaru pahi,
onahima othukumana wa amusi.
Os telhados da casa redonda repara num só lugar.
todos os bambus realizam um só trabalho,
significa o encontro do parentesco.

Nsele na kirukurere nakhala na mitathi nari mithala,
ethipeliwaka milulo mili sowalela ,
nthowa nowòva akharamu.
A porta da casa redonda era
de caule de cereais ou de bambus.
colocava-se dois paus para trancá-la,
pelo medo dos leões.

Um segundo termo para indicar a casa redonda é kirukurere: forma verbal substantivada, significa cerca-me, refere-se a forma circular da casa, um círculo perfeito que acaba no cone degradante. Um terceiro termo de três variantes é kakamele, kokamele, kukamele: um pesquisador traduziu por aconchega-me/aconchegante. Um quarto sinónimo é namarenkha: derivativo do verbo orenkha excitar eroticamente, acasalar, copular. Um quinto sinónimo é xowa: significa espada, catana, portanto no nosso contexto indicada uma casa redonda aguçada como o termo thokola.

Nsina nopatxera ti thokola,
nanaveli ti kirukurere,
nanararu kukamele,
nanaxexe namanrekha,
nanathanu xowa.
O primeiro nome é thokola
o segundo é Kirukurere (cerca-me),
o terceiro é Kukamele (aconchega-me/aconchegante)
o quarto é Namarenkha (acasalar)
o quinto é xowa (espada, catana).

Kirukurere empa ya amuhakhalai
enahima atthu makilathelo aya,
othukumana mwa makholo
ti otthuka exariya yowettela,
wasa ni ophwanya ekumi ya muloko
Kirukurere é a casa dos antigos,
significa o lugar onde a gente se sentava em redor,
pois para os antepassados reunir-se
significa procurar a justiça/verdade a seguir,
procurar e apanhar a vida do povo.

Enenero ya kirikurere
enenero ya ntxatxe naphuttuwaka.
A imagem da casa redonda é
como aquela do cogumelo quando germina.

Por fim, na análise terminológica de thokola é preciso mencionar o alpendre Muttheko que é uma macro thokola presente e visível ainda hoje em toda a parte, como tribunal ou parlamento a disposição da autoridade ou como lugar doméstico de descanso e de hospedagem.

Murima wa pwiyamwene ni wa mwene
ti muttheko a thokola.
O coração da matriarca e do chefe
é o alpendre redondo.

Muttheko a omwene onakhala a thokola,
thokola muttheko a ohano
O alpendre da autoridade é redondo,
a casa redonda é o alpendre da autoridade.

Muttheko thokola a milattu.
O alpendre é a casa redonda dos problemas.

Nethi muttheko awe thokola.
O alpendre do natural é a casa redonda.

Em síntese, toda a terminologia apresentada está a indicar um edifício circular, com uma só porta, sem janelas, com telhado cónico agudo. Este edifício sugere a ideia de unidade solidária, adequado para defender e guardar segredos e coisas importantes. De facto são todos substantivos da primeira classe, classe dos grandes, como agora se há-de ver.


2- Thokola: Mini-Namuli

Em primeiro lugar, a forma arquitectónica, circular e cónica da thokola faz lembrar o monte Namuli. Thokola é um micro-namuli. Namuli não é só um monte, é o nome de Deus mesmo, portanto thokola sendo um mini-namuli, reactiva e manifesta a presença de Deus em toda a parte, não é uma qualquer casa, mas uma casa santuário, um templo de Deus e dos espíritos, lugar sagrado onde se guarda e se celebram os mistérios e os ministérios da vida, se vive e se cura com a ajuda de Deus e dos espíritos, lembra por fim ao xirima a sua provisória peregrinação, veio do macro-thokola Namuli e vai lá regressando também. Em síntese, thokola é um lugar que merece todo o respeito, toda a veneração, devido sobretudo à valência teológica e mística que a biosofia e biosfera lhe escreve.

Thokola ori mwa enenero ya Namuli,
khweli ti mwanamuli a vate atthu anahakalalayano.
A casa redonda é o micro-namuli,
na verdade, é micro-namuli do lar
no qual as pessoas se alegram.

Eruwa nsina nikina ti kirukurere,
enahima mwanamuli nari erimu ya vathi vava.
Outro nome do muchém é Kirukurere
significa o mini-namuli ou o céu terrestre.

Wohiveiha empa ya thokola,
niwoko erimarima yo Namuli.
Não desprezes a casa redonda
porque é a essência do Namuli.

Mululo onawaleliwa empa ya thokola
enahima wulula so Namuli.
O fecho com o qual se fecha a casa redonda
significa repetir coisas de Namuli.

Nipatho na thokola enahima Muluku Namuli,
niwoko Muluku onakhala vatthomelani va mutthu.
O telhado da casa redonda significa Deus,
pois está na fontanela da pessoa.

Muluku ekhalelo awe eri ya thokola,
hiyo nri vathi, owo ori onipathoni.
A essência de Deus está na casa redonda,
nós na parte inferior, Deus na parte superior.

Vothevene Muluku òkhalano
impa sa thokola sinòneya ottayi,
siri myako ni iruwa.
Em toda a parte Deus tem as suas casas redondas
visíveis de longe que são os montes e os formigueiros
(mini-namuli).

Nipatho na thokola nnathonyera
eruwa ekhani ya minepa s’axirima.
O telhado da casa redonda indica
o pequeno muchém dos espíritos dos xirima.

Nipatho na thokola alipa a mirusi
t’anamuhelaya makeya ni tho anìniha mila saya.
As curandeiras do mirusi deitam a makeya
e fazem dançar os seus rabos,
no telhado da casa redonda.

Khalai elola yànakhala empa ya thokola,
eri empa ya Muluku ni minepa so Namuli.
Antigamente o espelho estava na casa redonda,
era a casa de Deus e dos espíritos namúlicos.

Wohimuhiya mutthu athololaka malaxi
empa ya thokola: onyonya womola minepa.
Não permitas a ninguém
que tire capim da casa redonda,
aliás expulsa os espíritos.
.
Wohikona wohiwaliwa empa ya minepa sa makholo,
eri empa ya thokola.
Não durmas sem fechares
a casa dos espíritos dos antepassados
que é a casa redonda.

Empa ya thokola enalikanxiwa makeya a elapo
aheleliwa Muluku.
A casa redonda é construída
à semelhança da makeya da aldeia
deitada /oferecida a Deus.

Mithala somutekela thokola
sinkhuma muthokolani
ni sinatthikela owani othokolani:
nokhumwa o Namuli nnotthikela weiwe.
Os bambus para construir a casa redonda
saem de lá e voltam para lá:
viemos do Namuli e lá regressaremos.


Imagens
Empa ya thokola eri ntoko xulupa,
onasunka ekumi, onlipiha etthoko
A casa redonda é como o esconderijo
que guarda a vida e fortifica o lar.

Empa ya kirukurere eri yottittimeya
ntoko mutholo wa elapo.
A casa redonda é respeitada
como a árvore sagrada da aldeia.

Thokola mwapu wa mirusi
olamiha ni oruha ovekela ni ekumi.
A casa redonda é como a panela de barro do mirusi,
cura e traz orações e vida.

Empa ya thokola murima wa namuku,
onalamiha ekumi ya mutthu.
A casa redonda é como o coração da curandeira,
que cura a vida da gente.


2- Thokola: Memória e memorial do Namuli,
marco histórico e cultural

Consequentemente, em segundo lugar, sendo thokola um mini-namuli, memória e memorial do Namuli, é um marco histórico da biosofia e biosfera xirima, é historia e ao mesmo tempo evento. Os antepassados vieram de lá, tendo gravado no coração a circularidade, a redondez e agudez do monte Namuli que necessariamente a lembram e a actualizam construindo a casa thokola. A história do povo xirima é marcada pela circularidade, concentricidade arquitectónica e menos pela quadratura arquitectónica que admite esquinas e quebram o fluido da circularidade. Patente ou latentemente manifesta-se como uma cultura que ama a democracia circular, sentar-se em redor, em posição paritária e horizontal, à mesma distância do pau central, sinónimo de Deus, é contrária a uma oligarquia quadrada angular.

Axirma ekhumaka o Namuli
impa saya sothene sothene sànakhala sorukurera
ntoko mwapu, eyo tiyo, thokola,
ti nlelo empa ni enenero ya axirima mpaka olelo vava,
eyarelo khenimwalamwalaniwa.
Todas as casas do povo xirima saíndo do Namuli,
eram redondas como a panela, isto é, eram thokola,
é ainda a casa e a característica dos xirima
até à data, pois não se deixa a origem.

Thokola enenero yopatxera ya axirima,
niwoko impa sothene sa makholo opatxera
sari sorukurera sawasawa makeya.
A casa redonda é a principal característica dos xirima,
pois todas as casas dos antepassados no passado
eran redondas como a makeya.

Makholo khanamwalano ni thokola,
niwoko àsuwela wi hiyo thokola ninwareke
ntoko nnawo ni itxapattho.
Os velhos não se separam da casa redonda,
porque sabem que nós vestimos a casa redonda
como o pé com sapatos.

Makholo ekhalelo ya thokola
akuxale eruwa ni mwako,
ari asinamuli, anyi, mapuro òttela
anlampwaiye Muluku ni minepa.
Para a casa redonda os antepassados
pegaram na forma do muchém e do monte,
que são mini-namuli, sim, lugares sagrados,
onde se adora a Deus e se veneram os espíritos.

Wa mwene onatekiwa kirukurere
wera atthu ekilathiki nipuro nokwanela nihiku na milattu.
No rei constrói-se a casa redonda
para as pessoas se sentarem num lugar suficiente
no dia dos milandos.


4- Thokola: Marco antropólogico matriarcal

Além de ter uma incidência teológica e histórica, o edifício circular e cónico thokola é uma metáfora significativa também no horizonte antropológico. Dado que a parte circular básica inferior com porta é feminina, enquanto que a parte superior cónica é fálica /masculina, thokola visualiza a nível doméstico a dialéctica entre a feminilidade e a virilidade, entre a mulher e o homem, e a nível civil político a dialéctica entre a matriarca e o chefe.

Empa ya thokola vathi enathonyera ethiyana,
nipatho na thokola osulú nnathonyera elopwana.
A casa redonda na parte inferior
simboliza o sexo feminino/feminilidade,
o telhado da casa redonda na parte superior
mostra o sexo masculino/a virilidade.

Vejamos atentamente estes dois aspectos. Em primeiro lugar, por ser um paradigma da bisexualidade antropológica, thokola é lugar para as mulheres solteiras viverem aguardando o dia da chegada do marido. Este chegando vive o primeiro tempo na casa Thokola para aí aprender a vida e as tarefas do casamento. Thokola é como um lugar liminal de prova e de formação, um lugar místico com forte presença namúlica que leva os esposos a maturidade afectiva e efectiva que se concretiza em gerar filhos. Retrospectiva e prospectivamente thokola é sempre para o xirima o útero, o embrião da sua vida, da sua história, da sua cultura, da sua grande e única viagem de saída e de regresso à macro-thokola Namuli.

Thokola/namarenkha
empa y’athupa/muttiye/òhitheliwa.
Thokola/Namanrekha é a casa redonda das solteiras.

Thokola/kukamele empa yopatxera axuttaiye oteka
mulopwana arowaka wothelani,
anyi, ti empa yomuhusiha wothelani .
Thokola é a primeira casa
que o homem aprendia a construir indo a casar-se
sim, era a casa para lhe ensinar o casamento.

Thokola empa yopatxera yorowa osuwela etthoko,
ti nikhuku nopatxera na vatthokoni,
niwoko isiri sothene sa Muluku Namuli
ni tho sa mutthu sinnakhala mwemmo.
Thokola é a primeira casa para conhecer o lar,
é a primeira gruta/asilo do lar,
pois lá se encontram todos os segredos
de Deus Namuli e também do mutthu.

Othela wopatxera makholo annèra:
ompankeke namarenkha.
Wathelá nanano, omupankeke namanreka/thokola,
omalo wòmoliwá khonìnla.
Ao começar o casamento os velhos dizem:
deves contruir Namarenkha.
Se casares agora, construas uma casa redonda,
pois se amanhã fores expulso, não vais chorar.

Mwathelá ninano, muhipanke empa ya exirapi,
niwoko minepa sinètta ni empa ya thokola.
Se casares agora não faças a casa de 4 águas,
pois os espíritos andam com a casa redonda.

Kukamele khanapankiwa, othenle khalai.
Kukamele não se constrói,
se te casaste há muito tempo.

Ekumi nirahuno nivahiwe muthokolani
eraya’mo ehime ya ekumi.
A vida que temos fomos dados na casa redonda
onde existe o poço da vida.

Omumula niwanre muthokolani
Na casa redonda é
que vestimos/recebemos a respiração.
Miruku nirahuno nivahiwe muthokolani.
Oyarana nivahiwe vathokolani
Wineliwa nivahiwe muthokolani.
Winanela nivahiwe muthokolani.
A sabedoria que temos recebemos na casa redonda.
o parentesco recebemos na casa redonda,
a iniciação recebemos na casa redonda,
a abstenção recebemos na casa redonda.

Thokola ori ntoko notxe:
sinakhuma itthu sorera.
A casa redonda é como ovo,
donde saem boas coisas.

Khalai mutthu asunkiwa ekilathelo
ekhapuri awe yorukurera,
ettharihaka impa sa thokola.
Segundo o enterro da forma antiga
a pessoa enterrava-se sentada,
a campa dela era redonda conforme a thokola.

Em segundo lugar, thokola visualiza a nível civil político a dialéctica entre a matriarca e o chefe. Este aspecto estrutural torna-se mais evidente na construção do alpendre/muttheko, a macro-thokola civil, onde a parte circular básica tem como coroa tudo-abrangente o círculo chamado mukhalaxiri, identificado pela cultura xirima com a matriarca, enquanto que a parte superior cónica nipunku é identificada com o chefe. Thokola marca e revela assim arquitectonicamente a dimensão civil da biosofia e biosfera xirima: a vida, a actividade e por fim o lugar descanso final da polaridade politica: a campa da matriarca e do chefe.

Murima wa pwiyamwene ni tho wa mwene
ti muttheko a thokola, namuli a elapo.
O coração da matriarca e do rei
é o alpendre redondo, o Namuli da aldeia.

Mukhalaxiri wa thokola mutokwene ti pwiyamwene
nipunku awe ti mwene
Mukhalaxiri (a parte inferior) da macro-thokola civil
é a matriarca, enquanto a parte cónica é o rei.

Khalai thokola mutokwene ànakhala w’amwene pahi:
omuteka thokola mutokwene
wàri wàveiha asipwiyamwene ni amwene.
Antigamente a casa redonda grande existia só no chefe.
pois construir uma casa redonda grande
era insultar a matriarca e o chefe.

Thokola ori ntoko pwiyamwene ni mwene:
woneya ottayi.
A casa redonda é como a matriarca e o chefe,
visíveis de longe.

Nipatho na thokola
nnathonyera suli apwiyamwene nari mwene.
O telhado da casa redonda mostra
o lençol vermelho da matriarca e do chefe.

Eruwa eri thokola pwiyamwene ni mwene
anavithiwaya’vo wera etthikele vowakuveya
owani wa Muluku Namuli.
O muchém é a casa redonda /mini-namuli
onde as matriarcas e os chefes são enterrados
para que regressem de pressa a pátria namúlica.

Apwiyamwene ni amwene
thokola ororomeleyaxa a valaponi.
A matriarca e o chefe
são a casa redonda na qual confia a aldeia.


5- Thokola: Dormitório seguro

Uma outra valência da casa thokola era pelo menos antigamente ser o dormitório seguro da família, significativamente os textos afirmam que antigamente se dormia com a mãe, pois na casa redonda materna a defesa era segura contra os animais ferozes.

Thokola onatekeliwa okona,
amay’á ekonaka empa emosá yeyo,
khalai mutthu ni amay’awe khamwalana okona
nthowa na amwatto.
Constrói-se a casa redonda para dormir,
a sua mãe dormindo na mesma casa,
pois antigamente não se dormia separado da mãe
por causa dos leões.


6- Thokola: Celeiro
Por fim, a casa thokola é o lugar onde se guarda a comida, sobretudo a mapira, símbolo concentrado da comida e da erótica feminina xirima.

Khalai kukamele empa makholo yapankaya matatha,
wera siheliwa sotxa saya.
Antigamente Kukamele era a casa
que os antepassados faziam
como celeiros para repor os seus produtos.

Thokola t’onasunka ekumi
ni tho makeya a vate,
ntatha na mele nnatekiwa empa ya thokola,
ti vanto yeriwaya
wi thokola onasunka ekumi ni makeya a vate.
O celeiro de mapira constrói-se na casa redonda,
por isso afirmava-se que a casa redonda
guarda a vida e a makeya do lar.



7- Thokola ni Ekristu
Thokola e a fé cristã

A arquitectura do edifício Thokola entra no horizonte cristão sem hesitação, iluminando por um lado sobretudo o horizonte cristológico e eclesiológico (Jesus cabeça da Igreja e Igreja corpo de Jesus) e por outro lado o sacramento da Eucaristia e o livro da Bíblia.

Yesu ori thokola ole mutokwene
Muluku ìyanthenraiye’mo miruku sawe sothene
sopattuxa, sovuluxa ni sopenuxa:
ti yowo nipunku na ekereja ni ekereja mukhalaxiri awe.
Jesus é aquela grande thokola
na qual Deus pôs toda a sua sabedoria
criadora, redentora e terapêutica:
é ele a cabeça da Igreja
e a Igreja seu corpo.

Ikereja sothene ya Yesu alaleyawe
siri sorukurera ntoko thokola
sinawakhela atthu othene a miloko e ilapo sothene.
Todas as Igrejas de Jesus são redondas como thokola,
pois recebem todas as pessoas
de todos os povos e nações.

Mwako Yesu apatxenraiye olalerya evanjelyu awe
wàri worukurera ntoko mwako wo Namuli a makholo.
O monte Sinai onde Jesus começou a evangelizar,
era redondo como o monte Namuli dos antepassados.

Empa y’okaristiya eri yorukurera ntoko thokola.
Okaristya ti thokola a akristu,
anaphwanya’mo yotx’aya ni yowurya.
O sacrário é redondo como thokola,
A Eucaristia é thokola dos cristãos
onde encontram comida e bebida.

Biblya thokola a ekumi yothene ya Yesu.
A Bíblia é a casa redonda de toda a vida de Jesus.

Thokola mwekristuni enanihusiha
wi impa sa itthoko sa akristu siri sottela,
sittalisiwe ni sitthukiwe mukereja,
siri ikereja sikhani/athokola akhani.
Thokola no cristianismo ensina-nos
que as casa dos lares são sagradas,
abençoadas e casamentadas pela Igreja,
são mini-igrejas, mini-thokola.


Avaliação
Este estudo dedicado ao edifício namúlico thokola revelou a sua importância histórica na biosofia e biosfera xirima, é um segmento que desvendou a totalidade do sistema das coordenadas xirima a nível religioso, teológico e antropológico.
Sintomática e ao mesmo tempo emblemática é a seguinte constatação: embora a thokola não seja frequente como as casas quadradas nipatxa e exirapi, o seu capital intencional, narrativo e evocativo é ainda presente e vivo no coração do xirima. Se os pesquisadores iniciam a sua descrição de thokola como um edifício arquitectónico do tempo passado, acabam por fim conjugando os verbos no presente e transmitem valores e conotações como se thokola seja ainda um edifício de extrema actualidade: mini-namuli civil e doméstico, santuário namúlico, celeiro e dormitório seguro.
Thokola é uma metáfora fecunda não só no contexto da biosofia e biosfera xirima, mas também quando entra em diálogo com a fé cristã. Leva o cristão xirima a formulações cristológicas e eclesiológicas sublimes que por um lado descrevem e por outro desvenda o latente no Kerigma.





A pessoa é imagem de Deus

Mutthu ori nihuwa na Muluku
A pessoa é a muda/imagem de Deus.

Vamwerini enowa khenahiya malepa,
nto nihuwa naya.
Cada mês a cobra não deixa as manchas,
mas a sua muda.

Introdução

Durante a guerra civil viajava-se sobretudo de noite para evitar encontros com os da Renamo. Sendo assim, à noite procurava-se viajar em coluna e de preferência ao luar para percorrer um caminho branco/visível (ephiro yottela) e assim evitar pisar cobras. Dormia-se também no mato sem fogo para não atraiçoar a nossa presença. Ao amanhecer uma vez aconteceu que um dos acompanhadores assustou-se bastante, pois descobriu que eu tinha dormido perto de uma muda de cobra. Mas logo me tranquilizou dizendo: “Não é a cobra mas só a sua antiga pele, a cobra mesmo não há-de estar longe, mas mesmo assim depois da muda anda doentia e não agride. Além disso, padre, deve saber que esta é a muda da cobra, mas nós também somos muda, sim a muda de Deus: mutthu nihuwa na Muluku”.
A dupla explicação era mais que suficiente não só para me tranquilizar mas também para despertar ainda mais a minha curiosidade acerca da cobra e sobretudo acerca do fenómeno da muda e a sua aplicação no horizonte teológico e antropológico. Foi tarefa dos pesquisadores satisfazer a minha curiosidade e na verdade comunicaram noções importantes que sinteticamente apresento.


1- Premissas morfológicas e etimológicas

Para entender o tema em estudo é preciso antepor uma análise etimológica. Nihuwa é um substantivo da segunda classe, a classe dos colectivos em geral. Etimologicamente nihuwa deriva do verbo ohuwa que significa criar crianças ou animais, fazer criação de animais, domesticar, educar/formar/cultivar pessoa, transformar, crescer.
Na forma reflexiva wihuwa o verbo assume sentidos mais específicos: criar-se, mudar-se, educar-se, formar-se, transformar-se, metamorfear-se, mudar ou largar a pele (cobras, pessoas...) e por fim despir-se.
Deste dois verbos derivam os seguintes substantivos que sempre têm latente ou patentemente um duplo sentido: por um lado um sentido teleológico de novidade, de rejuvenecer, de educação, de formação, de transformação, de crescimento em vista de uma nova vida, novo status; por outro um sentido entrópico de resto, de sobejo, de sobra de algo que envelheceu, que já desenvolveu a sua função mas que tem sempre o marco arqueológico de identidade, de memória, de fotografia autêntica.

1- Nihuwa, Ma-:
a- é a muda de cobra, queda, desfólio, camisa antiga da cobra: o aspecto arqueológico como o teleológico são patentes: trata-se de uma renovação/crescimento de nova pele, de um rejuvenecimento da cobra;
b- é o grão de amendoim que fica na terra de um ano para o outro e que é o primeiro a germinar/nascer/crescer e a ser colhido (ekolwele): patente é o sentido teleológico de renovação e continuação da vida, muito latente fica o sentido arqueológico, sobretudo entrópico.

2- Nihuwo, Ma-: frango, galo ou galinha já crescidos mas ainda jovens: também neste termo vale o que se disse acerca de nihuwa (b): patente é o sentido teleológico de renovação e continuação da vida, muito latente fica o sentido arqueológico, sobretudo entrópico.

3- Muhuwo, Mi-, Muhuwelo, Mi-: cria, criação: também para estes termos patente em modo quase exclusivo é o sentido teleológico de formação e transformação da vida, muito latente fica o sentido arqueológico, sobretudo entrópico.

4- namahuwa, A-: criador de animais, educador de pessoas, pessoa que transforma o dado arqueológico num dado teleológico renovado, maduro.

5- Namwihuwa, A-: auto-criador, auto-transformador que renovando-se deixa sobra, resto, muda, fotografia de si mesmo


2- Nihuwa na enowa
A muda da cobra

Com nihuwa em geral a biosofia e biosfera xirima entende a muda, a camisa, a pele antiga que a cobra deixa, umas delas anualmente, outras em zonas tropicais e subtropicais como a do Niassa mensalmente. Este pormenor foi confirmado por todos os pesquisadores e por outras pessoas por mim questionadas, porque achava errado afirmar o ritmo mensal da muda. Consultando também manuais ad hoc, confirma-se que em zonas quentes como as tropicais, existem cobras que mudam a pele várias vezes no ano.
Agora o camponês xirima insiste que se trata de um ritmo mensal em sintonia com as fases lunares. Com a lua minguante inicia o desfolamento da cobra, no interlúnio a cobra está num estado doentio, não se mexe nem agride, por fim com o novilúnio recupera todas as suas forças.
É evidente a analogia com a mulher, a cobra é um arquétipo feminino. Significativamente um pesquisador mencionou Gen 3, onde se fala da cobra que inicia a sua tentação com a mulher, devido a afinidade e homogeneidade biológica.
Além da ciclicidade mensal da muda, os textos salientam outro aspecto: por um lado é memória retrospectiva, é fotografia autêntica, é o resto arqueológico da cobra, por outro patenteia uma metamorfose nova, uma renovação de vida e de forças da mesma cobra.

Mweri wayevaka/wamalaka,
enowa enavoreiwa, enimìhuwa
mpaka orula nihuwa /nihuwalelo naya nothene,
vakhani vakhani mahiku eviraka
mweri munyowani okhumaka enolama
elipihaka exapala aya enyowani,
Com a lua minguante, a cobra adoece,
pois inicia o processo de desfólio da pele
até tirar toda a sua pele antiga/muda,
depois, devagar, com o passar dos dias,
com o novilúnio cura tornando-se forte com a nova pele.

Vamwerini enowa khenahiya malepa,
nto ennavoreiwa ehiyaka nihuwa naya,
ekhalelo ya enowa enlikana ni yela ya muthiyana,
ntoko niwalahu mbiblyani enowa ni Eva.
Cada mês a cobra não deixa as manchas,
mas adoece deixando a sua muda.
O seu comportamento é semelhante ao da mulher,
como se lê na Biblia: a serpente e Eva (Gen.3).

Nihuwa wanteya wa exapala ya khalai ya enowa,
nnahima otxentxeya/wummuwa wa erutthu aya,
niwoko enalatta/enatthara erutthu aya.
A muda é esfolar-se da pele antiga da cobra,
significa a mudança/renovação do seu corpo,
pois é semelhante a ele.

Mutthu òná nihuwa na enowa
onnatthawa èraka ti enowene.
Ao ver uma muda de cobra,
a gente foge exclamando que é a própria cobra.

Nihuwa na enowa nnalikana ni mwanene ìhuwale,
khaninkhala ehuhu yintxipale.
A muda é semelhante ao dono que se transformou,
não dura muito tempo/não tem consistência.

Enowa vamwerini enimwihuwa
ehiyaka vathi nihuwa naya nri nolikana ni enene.
Cada mês a cobra desfola-se/renova-se/rejuvenece
deixando no chão a sua muda semelhante a ela mesma.

Enowa yìhuwá khenètta ottai,
onavoreiwa nari khenluma.
A cobra quando se desfola, não anda longe,
está doente nem morde.

Wihuwa otokotoko ti oyara okumi onyowani,
ophwanya ephiro enyowani.
O desfólio maior é gerar nova vida,
é encontrar um novo caminho.

Enowa yìhuwa khentthikela owani wa khalai.
A cobra quando se desfola,
não volta para a toca antiga.


2- Nihuwa ni mMutthu
A muda e a Pessoa

Já só a nível biológico, a cobra resultou numa metáfora antropológica da mulher devido à ciclicidade mensal das mudas. Provavelmente esta afinidade levou a biosofia e biosfera xirima a assumir a metáfora nihuwa como paradigma aplicável a todo o plenisfério antropológico e ao horizonte teológico.
Em primeiro lugar, nihuwa patenteia uma das três componentes do mutthu, a sua sombra (eruku), a parte intermédia entre o corpo e o espírito, a parte ponte que junta as duas margens, sendo imagem e fotografia autêntica mas velada de ambas: não há sombra sem corpo nem há sombra sem espírito, em suma, nihuwa é o negativo fotográfico do corpo e do espírito ao mesmo tempo.
Por esta razão, a nihuwa antropológicamnte tem ciclos e fases próprias, onde o mutthu deixa parte do passado e se dispõe a dar saltos qualitativos de renovação e de rejuvenecimento como acontece nas iniciações, nos ritos terapêuticos, nas adversidades e calamidades da metereologia humana até à última fase, à última transformação que é a morte, entendida sempre como desfolio mas também como vida nova e definitiva do mutthu no útero materno de Deus Namuli.

2.1 Nihuwa na mutthu - A muda do mutthu

Nihuwa emp’aya ti erutthu,
nihuwa nnalikana ni eruku,
nnalikana ni ekhaikhai ya munepa enene.
A casa da muda é o corpo,
a muda é semelhante à sombra,
igual à imagem original do espírito mesmo.

Eruku nihuwa na mutthu,
mutthu òná eruku awe asuweleke
wera kònale munepa aka.
A sombra é a muda/imagem da pessoa:
se alguém vir a sua sombra,
deve saber que viu o seu espírito.

Makholo anèra: nihuwa nnakhuma vekhaikhaini.
Os antepassados dizem:
a muda/sombra vem da verdade,
(é imagem/fotografia da verdade).

Mwana ayariwaka onnarapa mahi,
onahima ovinxa nihuwa noyaraniwa.
A criança quando nasce toma banho
significa tirar-lhe a muda do nascimento.


2.2 Wihuwa, ohuwa wa mutthu
Metamorfoses do Mutthu

Mutthu watta mota mihuwelo awe.
A pessoa passa por muitas mudas/transformações.

Wihuwa womalihera wa mutthu ti okhwa wawe
ohalaka murutthu nihuwa nawe.
O transformar-se último da pessoa é a sua morte,
ficando o cadáver como a muda/resto/sobra/sobejo dele.

Wihuwa wa erutthu annahala makhuva/murutthu.
Na transformação do corpo ficam os ossos/cadáver.

Wihuwa ovinxa enamwane
ntoko ovoreiwa ni olama,
ntoko okhwa ni ovinyerera.
Transformar-se é tirar a criancice/infância,
é adoecer e sarar, é morrer e ressuscitar.

Wihuwa wiyara,
oyara okhala itthaya sinkhwa
okona ohusera okhwa,
okhwa okona womalela,
Transformar-se é gerar-se,
gerar é ser terras mortais,
dormir é aprender a morrer,
morrer é dormir plenamente.

Mukalampa wa omwene wihuwa,
omwene nipatxi onohiyeraniwa,
A sucessão do rei é criar-se/rejuvenecer-se,
é como o casaco que se deixa para outros.

Wihuwa olikana/olatta.
Auto-transformar-se é igualar-se/imitar-se.

Wàhuwa anamwane wihuwa/wipittikula.
Criar as crianças é elas transformarem-se,
/criarem-se/mudarem-se.

Makholo yèra: an’ihu yamuyará mwana,
hiyo tho nòhìhuwa vamosá ni yawo
Os antepassados diziam:
se os nossos filhos gerarem filhos,
nós também nos criamos, crescemos junto com eles.

Wineliwa wihuwa wa mutthu.
niwoko owineliwa onnahiya sa khalai.
A iniciação é a renovação da pessoa,
porque o iniciando deixa o passado.

Wihuwa orapa/omira murette.
Transformar-se/renovar-se é tomar banho/remédio.

Mutthu wihuwa wawe watta mota:
ovoreiwa, okhwa:
nto okhwa nnimwettahuno
wihuwa waya okumi tho.
A transformação da pessoa tem muitas formas
como adoecer e morrer,
mas a morte com a qual andamos,
a sua transformação é reviver.

Wihuwa ekhove ya Muluku Namuli,
wihuwa emoni /epheyo ya Muluku.
A muda é a cara/fotografia/memória de Deus Namuli,
é a saudação, o vento (eco) de Deus.

Vathi mutthu ori eruku/nihuwa
na yeyo onrowaiye okhala o Namuli munepene.
Na terra a pessoa é a sombra/muda daquilo
que será no Namuli como espírito completo.



3- Nihuwa ni Muluku
A muda e Deus

Em segundo lugar, a nihuwa antropológica é reflexo não só da estrutura intrínseca trinária do mutthu, mas é também reflexo transcendental de Deus. O mutthu é memória, imagem, gravura da imagem que Deus lhe doou e lhe deixou ao momento de o gerar.
Os textos produzidos pelos pesquisadores são numerosos e mesmo nas repetições demonstram desenvolver um tema bem conhecido, bem entendido e bem vivido a partir do berço autêntico da própria biosofia e biosfera cultural. Podem até despertar a duvida de serem paráfrases do texto bíblico do Gen 2, mas a metáfora nihuwa, catalizador e denominador comum de tantos textos, não remete a nenhum passo bíblico.
A riqueza, a vivacidade dos textos atraiçoa pelo contrário a presença de um caudal autêntico e genuíno da antropologia e teologia xirima. Raramente os pesquisadores demonstraram tantas formulações e variantes do mesmo tema. A teologia e religiosidade xirima não precisa do texto bíblico veterotestamentário e neotestamentário para proclamar e professar que o mutthu é muda/imagem de Deus, que leva em sí a marca que Deus lhe imprimiu no dia que o fez sair do seu útero materno. Se esta marca é especial e superlativa no horizonte antropológico, não falta em nenhum ser do reino animal, vegetal e anorgânico. A muda /imagem de Deus namúlico, cobra matriarcal, está bem imprimida e visível em todo o horizonte cósmico.

Muluku Namuli pwiyamwene
ti enowa enìhuwa
kahiyene vayakhani nari vamwerini vothene
mene ohiyu ori wothene,
nilepaka ni tho nehelaka nihuwa nawe
mwa itthu sothene ompattuxaiye.
Deus, Namuli matriarca, é a cobra que se desfola
não todos os anos nem todos os meses,
mas todas as noites,
escrevendo e imprimindo a sua muda/imagem
em todas as coisas que gera.

Muluku enowa etokwene yo Namuli
àhiya ekwanihero awe vanihuwani vawe,
eyo tiyo, mwa sopattuxiwa sothene,
nto vantxipalexa mwa mutthu ampattunxaiye.
Deus, a grande cobra do Namuli,
deixou a sua plenitude na sua muda/imagem,
isto é, em todas as criaturas,
mas particularmente no mutthu que gerou.

Nihuwa na Muluku ti eruku ni munep’awe wene.
A muda/imagem de Deus é mesmo
a sua sombra e o seu espírito.

Nihuwa na Muluku murim’awe wene,
khannithowa woniwa ni oromoliwa.
A muda de Deus é mesmo o seu coração,
não falta ser vista e mencionada/invocada.

Muluku onnakuxa nihuwa/eruku awe
onèttano vothevene mmatatani.
Deus leva a muda/sombra dele
andando em toda a parte com ela tendo-a nas mãos.

Muluku àhela vamutthuni nihuwa nawe,
sothene sinèreya vathi vava
sirino nihuwa na Muluku Namuli.
Deus pôs a sua muda/imagem na pessoa,
tudo o que acontece aqui na terra
tem a gravadura de Deus namúlico.

Mutthu nihuwa na Muluku
niwoko mutthu okhumale
mwa Muluku yowene pwiyamwene
ayarenle sopattuxiwa sothene mwa ekhove awe
alepaka’mo ekhove awe, ahiyaka’mo nihuwa nawe.
A pessoa é a muda/imagem de Deus
porque saiu de Deus mesmo,
matriarca que gerou tudo e todos
imprimindo a sua imagem e deixando a sua muda.

Mutthu ori nihuwa na Muluku
ahiyalaiye vathi vava vamosá ni hiyo,
Muluku mwanene akhaleke wirimu.
A pessoa é a muda/imagem de Deus
que deixou aqui na terra connosco
enquanto ele mora no Céu.

Mutthu nihuwa na Muluku,
niwoko vopatxera amupankaka mutthu
awehale erutthu awe.
A pessoa é a muda/fotografia de Deus,
porque no começo quando fez a pessoa,
ele olhou ao seu corpo/essência/identidade.

Òviye nihuwa na Muluku,
omòviye Muluku mwanene.
Quem tem medo da muda/imagem de Deus,
tem temor mesmo perante dele.

Onatthukaiye Muluku,
nihuwa nawe nnatthuka yeyo.
O que Deus amarra,
também a sua muda/imagem amarra.

Otthekeru, khonawerya otxipiha
nihuwa na Muluku mmurimani mwá.
Mesmo pecando, tu não apagas
a muda/imagem de Deus no teu coração.

Mutthu onaramusa ettini,
onnanariha nihuwa na Muluku àkhenlaiye.
A pessoa que despreza a religião,
estraga a muda/imagem de Deus que recebeu.

Wakhwá, Muluku onnìtthana nihuwa nawe,
anyi, mokhwani Muluku onnakuxa nihuwa nawe,
okhalaka vathi vava murutthuru á pahi..
Na tua morte, Deus chama a sua muda/imagem,
sim, no caso de morte Deus leva a sua muda/imagem,
ficando aqui na terra só o teu cadáver.

Khonèriwa: kamònale Muluku,
oriki wònalene nihuwa nawe.
Não se diz: se eu visse a Deus,
se já viste a sua muda/imagem.

Nihuwa na enowa khannirera niwoko noluma.
nihuwa na Muluku khannòpiha nari khannòpopiha.
A muda da cobra nunca é agradável, porque morde,
enquanto a muda/gravura de Deus
nunca é perigosa nem ameaça.

Mwettelo w’axirima othene àsuwela
wera mutthu ori nihuwa na Muluku.
Todos os xirima conforme a sua cultura sabem
que a pessoa é a muda/imagem de Deus.

Mutthu nihuwa na Muluku
okhala wera onlikana ni yowene,
ti muluku a vathi, muluku mukhani,
ti ekwanihero etokotoko ya Muluku,
omuluku onakhala vamutthuni.
A pessoa é a muda/imagem de Deus.
porque é parecido com ele mesmo,
é o deus da terra, o deus pequeno,
o maior complemento de Deus,
a divindade encontra-se na humanidade.

Nihuwa na Muluku ninnawerya opanka itthu sotikiniha,
Muluku àpattuxa itthu
wera nihuwa nawe nnilamuleke
ni nnimwaleke vothevene.
Mutthu ti mutokwene a sopattuxiwa sothene,
t’ovahale masina wa sothene,
mowiwana ni nihuwa sàkhenlaya.
A muda/imagem de Deus
consegue fazer coisas maravilhosas.
Deus as criou para que a sua muda/imagem
mandasse e resplandecesse em toda a parte.
O ser humano é a maior de todas as criaturas,
deu nomes a todas elas
em conformidade à muda/imagem que receberam.

Mutthu nihuwa na Muluku,
niwoko mutthu t’onlikana ni yowo,
ti elataretto ni ekwanihero awe etokotoko
wopwaha sopattuxiwa sawe sothene sikina:
mutthu ti mutokwene a valapo.
okhalano ikuru sintxipale.
t’onùpuwela vantxipale.
O mutthu é a muda/imagem de Deus,
porque é semelhante a ele,
é a sua fotografia e seu complemento maior
mais que todas as outras suas criaturas:
o mutthu é o cabeçário do mundo,
dispõe de muitas forças e de muitos ideias.

Mutthu nihuwa nokwanihera na Muluku
niwoko ori muthiyana ni mulopwana,
àhiyeraka siso nwiya nawe nene.
O mutthu é a muda/imagem completa de Deus
porque é mulher e homem,
deixando-lhes assim o seu mesmo respiro.

Wihuwa wa Muluku opattuxiwa wa mwana.
Muluku mwaná:
khavo oyariwe ahikhalano nihuwa na Muluku.
O mudar-se de Deus é o nascimento da criança.
Deus é criança:
ninguém nasceu sem a muda/imagem de Deus.

Muluku òkhalano ehuhu yothokorora nihuwa,
kula mutthu òkhalano eyakha awe yowakhelela.
Deus aguarda a altura para a sua muda,
cada pessoa tem o seu ano para a receber.

Nèttelá sa Muluku nihuwa nawe opisa othama.
Ehuhu yaphiyerá, Muluku onnakuxa
nihuwa nawe nnotthikela
mmurupani/muniphwanyani mwawe mo Namuli.
Seguindo as normas de Deus,
a sua muda/imagem demora a sair de nós,
na altura própria Deus leva-a,
a sua muda/imagem regressa
ao seu bolso/útero no Namuli.

Ekhove ya Muluku nihuwa nawe mmutthuni,
tivanto mutthu onamulapelaiye/onanvekelaiye Muluku.
A cara de Deus é a muda dele na pessoa.
por isso essa o adora e o invoca.

Nihuwa na Muluku ari malaya awe,
vowariha mutthu onnatxentxa ekum’awe
akuxaka ekumi enyowani.
A muda de Deus é a camisa dele,
ao vestí-la o mutthu muda a sua vida,
pegando num caminho novo.

Mutthu nihuwa na Muluku
niwoko mutthu nikhurumela ni exapala ya Muluku,
wona wi Muluku t’onvahale ephattuwelo awe,
niwoko Muluku onnètta n’atthu.
niwoko mutthu ori ethoni ni munepa awe.
niwoko Muluku onòneya vamutthuni,
niwoko Muluku muthato wa mutthu.
niwoko miteko sa Muluku t’onvara mutthu,
niwoko ikano sa Muluku sinimwèttiha mutthu,
niwoko Muluku t’omusuwenle mutthu,
niwoko mutthu t’onìwa masu a Muluku,
niwoko khavo ohinamwasa Muluku,
niwoko Muluku khanimuhiya mutthu ahawaka,
niwoko Muluku onaremera ni mutthu,
niwoko mutthu onùluma ni Muluku vamapuro mothene,
niwoko movelavelani khavo onamuramusa Muluku.
niwoko mutthu onnapuha wa Muluku.
niwoko Muluku ti murette ni murettele wa mutthu
O mutthu é a muda/imagem de Deus,
porque ele é a nódoa e a pele de Deus,
porque é Deus que lhe deu a existência,
porque Deus anda com o mutthu,
porque o mutthu é a cara e o espírito dele,
porque Deus é visível no mutthu,
porque Deus é a ponte do mutthu,
porque as obras de Deus são as do mutthu também,
porque as normas de Deus guiam o mutthu,
porque Deus conhece bem o mutthu,
porque o mutthu escuta a palavra de Deus,
porque não há ninguém que não procure a Deus,
porque Deus não deixa o mutthu no sofrimento,
porque Deus é rico com o mutthu,
porque o mutthu fala com Deus em toda a parte,
porque na necessidade ninguém despreza a Deus,
porque o mutthu goza em Deus,
porque Deus é remédio e paz do mutthu.

Mwan’aka, omàle kòlele
wera mutthu nihuwa na Muluku mwanene elapo.
okhala nihuwa na Muluku mutthu ori vokhwani.
Meu filho, cala-te, vou te informar
que a pessoa é a muda/imagem de Deus,
para ser tal a pessoa é destinada a morrer.

Sinanisuweliha wera mutthu ori nihuwa na Muluku
siri minepa sèraka:
mutthu ti nihuwa na Muluku kwekwe.
Os que nos informam
que a pessoa é a muda/imagem de Deus
são os espíritos que afirmam:
a pessoa é a muda de Deus para sempre.

Muluku namahuwa/marukunuxa/mukakhari.
Deus é criador, virador, raíz.

Omuhuwa mutthu omuhuwa Muluku.
Criar/educar a pessoa é criar/dilatar Deus.

Muluku Namuli nikhumalahu’wo,
Muluku t’opatxenre wihuwa.
vowayara atthu mwa nihuwa nawe,
oyariwa olatta.
Deus é Namuli donde saímos,
Deus é que começou a transformar-se,
gerando todos conforme a sua muda/imagem:
nascer é imitar/copiar.

Wihuwa wetta ni atthu,
niwoko Muluku opatxenre okhala
va sopattuxiwa sawe sothene ni vamutthuni,
Ephattuwelo khenakhummwa.
Muluku khapá: empawe eri vamutthuni:
Transformar-se é andar com as pessoas,
porque Deus é que começou a viver
com todas as suas criaturas e com as pessoas,
da origem não se sai:
Deus é como o cágado:
a sua demora é a humanidade.

Khole khonamuyara tthupili,
nto Muluku t’onamuyara mutthu
mwa nihuwa nawe.
O macaco não gera macaquinho/chico,
pelo contrário Deus gera a pessoa
conforme a sua muda/imagem.


4- Nihuwa ni Ekristu
A muda e a Fé cristã

A iridescência simbólica e metafórica da muda da cobra não se esgota nem se apaga entrando no horizonte do Kerigma cristão. Como imagem autêntica deixada pela cobra, o paradigma nihuwa consegue focar bem e exemplificar o centro da fé cristã que é a encarnação de Deus no seu Filho Jesus, cara e imagem primária de Deus na história da salvação. Nihuwa é uma apropriada metáfora cristológica, Jesus é imagem única de Deus, desfigurada na cruz por imolação, perenizada na Eucaristia.
Além de ser um paradigma cristológico, a metáfora nihuwa torna-se também paradigma que estimula a fé viva e simples do cristão xirima na SS. Trindade. Ele não recua de tentar de patentear simbolicamente a vida interna trinitária à luz da metáfora em estudo. Deus é uno e único, mas na dinâmica de três mudas/reflexos/caras recíprocas.
Por fim o tema em estudo recebe a sua aplicação também no sector eclesial e sacramental.


Nihuwa ni Yesu/Oraru Wottelaxa
Muda e Jesus /SS. Trindade

Mwekristuni nihuwa na Muluku
ti Yesu vantxipalexa, mopoli àtthu othene.
No cristianismo a muda/imagem de Deus
é sobretudo Jesus, o salvador de todos.

Muluku òmuyara Mwan’awe Yesu Kristu.
Yesu orino nihuwa nawe nokwanihera.
Deus gerou Jesus Cristo, seu Filho.
Jesus possui toda a muda/imagem de Deus.

Nihuwa nopatxera na Muluku ti Yesu kristu,
Ti yowo onisuwelihale
wera hiyo nri nihuwa na Muluku Atithi
A primeira muda/imagem de Deus é Jesus Cristo.,
é ele que nos fez conhecer
que somos muda/imagem de Deus Pai.

Yesu àhìhuwa vamuttandani
niwoko na sottheka sahu.
Jesus desfigurou-se na cruz
por causa dos nossos pecados.

Makholo anèra: nihuwa ti olatta wa Muluku.
Yesu Kristu ti nihuwa wa Muluku,
amulantte Muluku Atith’awe anene,
mirirya sawe sothene ti mirirya sa Muluku.
Os antepassados afirmam:
a muda é imitação/semelhança de Deus:
Jesus Cristo é a muda/imagem de Deus,
imitou a Deus mesmo, seu Pai,
todos os seus milagres são os milagres de Deus.

Yesu Kristu àhiya nihuwa nawe mokaristiyani.
Jesus Cristo deixou na Eucaristia
a sua muda/imagem/memória.

Mwana ni Munepa Wottela
nri nihuwa nnakwanihera Oraru Wottela.
O Filho e o Espírito Santo
são a muda/imagem/reflexo pleno de Deus Pai.

Atithi, Mwana ni Munepa Wottela,
Muluku ori mmosaru, mahuwa awe araru
O Pai, o Filho e o Espírito Santo
é Deus uno mas em três mudas/imagens/reflexos.

Mwekristuni Munepa Wottela
nihuwa na Muluku Atithi ni Yesu Kristu.
Conforme a fé cristã o Espírito Santo
é a muda/imagem de Deus Pai e de Jesus Cristo.

Nihuwa na Munepa Wottela
nnakhala vamurimani wa mutthu.
A muda/imagem do Espírito Santo
vive no coração do baptizado.

Mwa makholo awe mutthu nihuwa na Muluku,
vano mwekristuni nòleliwa wi
Muluku t’okwanihera onitaphulela
miruku seiya sothene sa makholo ahu
vanirumihalaiye hiyo Yesu Kristu, Mwan’awe,
nihuwa nawe nomalela nokwanela ni nokwanihera
vamosá ni savaha sothene sa Munepa Wottela.
Para os nossos antepassados
a pessoa é muda/imagem de Deus.
Agora na fé cristã fomos informados
que Deus acabou de nos explicar todo o sentido
desta afirmação dos nossos antepassados,
enviando-nos o seu Filho, Jesus Cristo,
sua muda/imagem plena, definitiva e ultimante,
junto com todos os dons do Espírito Santo.


Nihuwa ni Ekereja/Ekristu
Nihuwa e a Igreja/Ética cristã

Watta w’akristu wihuwa wa ekereja.
A multidão dos cristãos é a cria da igreja.

Erutthu empa ya nihuwa na Muluku,
Ekereja empa ya nihuwa na Yesu
vothevene ni va maithoni va miloko sothene.
O corpo é a casa da muda/imagem de Deus.
A igreja é a casa da muda/imagem de Jesus Cristo
em toda a parte e perante todos os povos.

Mutthu ori nihuwa na Muluku
namwi yottheka ya Adamu ni Eva, makholo awe.
A pessoa é a muda/imagem de Deus,
apesar do pecado de Adão e Eva, seus antepassados.

Mutthu òttiya maru,
onnatthara nihuwa na satana.
A pessoa renitente segue a muda/imagem de Satanás

Akristu othene arino mmurimani mwaya
nihuwa na Muluku mmosaru ni Oraru wottexa
yakhenlaya nihiku na obatizo aya.
Todos os cristãos têm no seu coração
a muda/imagem de Deus uno e trino
que receberam no dia do baptismo.

Obatisiwa wihuwa wa ekereja,
orimwihuwa mwa Yesu Kristu,
ti okhwa ni ovinyerera mwa Yesu Kristu,
ti oyariwa wanaveli, ti wineliwa ekristu
orukunuxa murima ni otthare ephiro ni ekum enyowani.
Ser baptizado é ser criado pela igreja,
é recriar-se em Jesus Cristo,
é morrer e renascer nele,
é renascer pela segunda vez,
é ser iniciado na fé cristã,
é converter-se e seguir novo rumo de vida.

Wihuwa ohiya sa khalai sa satana
ni otthara sa nanano sa Evanjelyu.
Transformar-se é deixar o passado mau de Satanás
e seguir o presente bom do Evangelho..

Ohinàttittimiha atithi ni amay’awe,
onnìva nihuwa naya yavahiwaya ni Muluku.
Quem não respeitar os pais,
mata a muda/imagem de Deus que receberam.

Hiyo niweherenre wihuwa womalela
nihiku nomalihera nokhwa wahu.
Nós esperamos a transformação definitiva
no último dia da nossa morte.

Alavilavi annatxipiha nihuwa na Muluku.
Os maus ofuscam a imagem de Deus

Oyara wona ni wonihera nihuwa nawe Muluku.
Gerar é ver e fazer ver a muda/imagem de Deus.


Apreciação crítica

Todos os axiomas em estudo assustam pela riqueza recôndita que guardam. Também no caso da muda da cobra o olhar do vidente xirima soube descobrir e formular oralmente assuntos e problemas que atormentam desde sempre a procura e a reflexão filosófica e teológica. Quem é o mutthu? Que definição exaustiva encontrar?
Como de costume, o xirima, o ser humano da “primeira palavra”, da percepção imediata das coordenadas da vida, não indugia em encontrar imagens, paradigmas, metáforas que não esgotam o tema mas também não o eludem, pois animam a ir mais em profundo, mais além. Alérgico por natureza às abstracções, contemplando o fenómeno da muda da cobra, a biosofia e biosfera xirima demonstra dutilidade e esperteza em empregar tal fenómeno às polaridades básicas como Muluku-Mutthu e Mutthu-Muluku. O ser humano é a imagem, a gravação, o negativo fotográfico de Deus. O mutthu é o tipo, Muluku é o protótipo. Com extrema simplicidade oral e beleza narrativa o xirima encerra e sintetiza montanhas de livros de inquietação humana.
Como os pesquisadores são cristãos, pode surgir a dúvida que as suas formulações são reduplicados do Gen 1-3. Mas observou-se durante a analise do axioma que nenhum passo bíblico acena minimamente à muda da cobra. Além disso e ainda mais, se o texto bíblico fala que Deus criou o ser humano à sua imagem e semelhança, não se preocupa minimamente em explicitar, exemplificar e aclimatizar tal afirmação no mundo imagínico, simbólico e metafórico dos adressados como pelo contrário a biosofia e biosfera o faz com desenvoltura, até com abundantia cordis.