segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

EKUXO
O estatuto da ekuxo na biosofia e biosfera xirima

Ekuxo ti ephome enyowani ya etthoko
Ekuxo mukuso/nlutte na wothelani.
Ekuxó é sangue novo da família.
Ekuxó é a cerca/fio no casamento.


Introdução

Na cidade ou nas pequenas vilas está entrando o individualismo doméstico de núcleos familiares restritos segundo o modelo ocidental. Cada família ocupa o seu pequeno terreno, o cerca com ciúme, logo que puder. A casa de pau-pique e matope é substituída mais tarde por uma casa em blocos. Se tudo proceder bem, em volta de um ou dois anos, a casa é coberta com chapas de zinco e, por fim, se os donos tiverem sucesso no comércio, desmancham tudo e constroem uma casa bem fechada e bem restrita em avenaria: é o apogéo do sonho da família restrita.
Em ambiente rural, onde se vivem ainda sem electricidade, sem rede, onde o ritmo nocturno e diurno ainda marca a vida do mutthu, é ainda possível ter a autêntica imagem da família alargada macua xirima, constituída pelos avós e, nos arredores da casa e do quintal deles, as habitações das filhas casadas. Estas geram filhos e filhos, mas são os avós que os educam, é no quintal deles que os netos brincam de dia e dançam nas noites lunares, sobretudo é no alpendre deles que toda a netalhada se reúne nas noites frias frequentando a escola doméstica. Pela boca dos avós aprendem a história, a tradição e a cultura da biosofia e biosfera xirima, transmitida sob a veste de provérbios, de enigmas e de contos. A educação doméstica perdura até que os netos se tornem adultos com o rito da iniciação e introdução à vida adulta.
Visitando estes aglomerados domésticos típicos da família alargada ou clánica, pode-se às vezes constatar que na casa dos avós há uma menina/neta que apoia constantemente a avó nas tarefas domésticas. Esta neta é denominada ekuxó. Raramente se ouve este nome, até se pode dizer que de preferência evita-se mencioná-lo. As poucas informações que se ganham nos inquéritos, são genéricas e reticentes, tipicamente macua, dizem tudo ocultando tudo. Isto obriga a um longo e paciente trabalho de pesquisa até que por fim é possível obter uma visão mais completa do horizonte intencional da ekuxo.


1- Etimo

O étimo da ekuxó é evidente. È um substantivo xirima da quinta classe, a dos abstractos, um transparente derivativo do verbo transitivo okuxa que significa levar, tomar para levar e entregar. Ekuxo como substantivo traduzido literalmente é a coisa que se toma para levar e entregar, uma leva, uma pega, um dom para entregar. No nosso caso ekuxo significa o acto, a decisão, o acordo do clã materno/uterino de escolher e portanto pegar numa neta/bisneta uterina e levá-la como oferta às avós maternas para que viva e cresça ficando com elas para sempre, ajudando a avó nas tarefas domésticas e substituindo-a plenamente nas relações com o avô.
Aqui em síntese o estatuto da ekuxó da biosofia e biosfera xirima nas suas componentes clássicas, conforme era vivido e conforme é evocado pela tradição. Evidente e imediatamente esta instituição doméstica xirima faz levantar várias perguntas carregadas de ressentimento que exigem explicações. Na verdade vem espontâneo quando se fala da ekuxo, suspeitar algo de perverso e de ilícito (eharamu); conclui-se sem hesitação que se trata de incesto, de ligação/união ilícita entre consanguíneos. A convivência do avô com a neta/bisneta uterina é logo qualificada e carimbada como incesto em aberrante violação da dignidade pessoal da menina, sobretudo em relação à sua idade. O estatuto da ekuxo seria uma das inúmeras expressões aberrantes do machismo mundial.
Outra avaliação espontânea e quase instintiva é aquela que vê no costume da ekuxo o início da poliginia xirima. A neta/bisneta substitui aos poucos em tudo a avó, torna-se a segunda mulher do avô e assim fazendo o caminho da poliginia está aberto.
Ambas as avaliações mencionadas, embora salientem um aspecto criticamente válido, são claramente unilaterais e reductivas, a sua força argumentativa não toma em consideração todo o texto e o contexto biosófico e biosférico da ekuxo, pois tem como premissas princípios extrapolados que não concordam com a biosofia e biosfera xirima. A maneira apropriada para entender e avaliar objectivamente o estatuto da ekuxo exige o conhecimento pormenorizado de três pessoas: a menina ekuxo e os avós que recebem a menina, isto é, a avó e o avô.


2- Ekuxo: A neta/bisneta

Ekuxo é a filha da filha da avó (mais frequentemente duma sua irmã ou duma sua parente), sendo trazida e dada ou oferecida por esta ao próprio marido, ao avô, portanto se trata de uma neta ou bisneta uterina que vai morar para sempre com os avós. Leva normalmente o nome colectivo de musulu, substantivo da primeira classe, derivativo do verbo osula que significa construir, concertar a parte superior da casa/família. Osulu como adverbio e preposição significa em/de/por cima, sobre, no alto, no ceu. Como substantivo abstracto osulu pertence à 4 classe, significa descendência ou ascendência, posterioridade, grande filiação do lado da mãe ou do lato uterino, em suma, todos os netos e netas, toda a netalhada normalmente chamada por musulu. Ekuxo é uma destas netas (musulu) ou bisnetas (mwumusulu a musulu: netinha da neta).
A menina/neta ekuxo, uma vez entregue aos avós, leva outros nomes. Os pesquisadores apresentam várias denominações catalogáveis em duas categorias. Uma primeira categoria abrange as denominações domésticas oficiais:
- pwiyapwiya, napwiya: é um reduplicativo ou diminuitivo de pwiya e significa a pequena dona/senhora, tratamento de respeito da parte do avô para com a ekuxo;
- tata: tratamento de respeito que olha as futuras mansões da neta (denominação teleológica prospéctica).
Uma segunda categoria abrange as denominações que se pode definir externas, genéricas, descritivas, alcunhas particulares, como as seguintes:
- mwetto: perna, no sentido que a neta/bisneta apoia os avós, seria alegoricamente a terceira perna para eles.
- pulaisi: gorjeta, mata-bicho, oferta para os avós.
- etxela vava/mpani: aquela que come/goza aqui no quintal/dentro da casa, em privado/segredo.
- ethelela vava: aquela que casa aqui/ para aqui.
- ekhwela vava: aquela que morre para os avós, isto é, os amas de todo o coração.
- mwahalaka vava: a habitante perene daqui.
Em conclusão, do ponto de vista da nomenclatura, a neta chama a avó por munna /irmã e o avô por apwiya/senhor, enquanto que o avô por respeito chama a neta por pwiyapwiya, napwiya, tata, e a avó a chama por musulu (neta) ou mwamusulu a musulu aka (bisneta).
Os textos que seguem procuram caracterizar o estatuto da ekuxo, ela deve ser sempre uma neta uterina e não paterna ou estrangeira, pode ser uma órfã, nunca uma mulher já casada, é escolhida antes da menarca, será tarefa da avó iniciá-la a vida matrimonial com o avô. A entrega da ekuxo realiza-se na devida intimidade e privacidade doméstica. Não é um casamento público com testemunhas, comida e cantos festivos, é porém sempre um acto em função do casamentos dos avós, o fortifica e revigora, como as inúmeras imagens não se esgotam de afirmar poeticamente. A ekuxo é uma makeya, a segunda oferta do e para o casamento dos avós, uma imolação que cumpre a família alargada para a vida dos avós. Pede-se a ekuxo muita paciência, sofrimento, plena disponibilidade para com a avó e o avô. Exige-se também dos avós o devido respeito, nunca se separam dela a não ser com a morte por Deus querida.

Ekuxo onakhala osulu wa munna.
Ekuxo é sempre una neta uterina da avó.

Ekuxo khenakuxiwa owani wa mulopwana
mene owani wa muthiyanaru, ehunlene.
Nunca se pega a ekuxo na família paterna,
mas na família materna, antes da menarca.

Mukwasuni t’onakhala ekuxo y’apwiy’awe.
Uma órfã é que se torna ekuxo do seu avô.

Ekuxo ya makholo,
enahima othela vathenlawe’vo.
Ekuxo conforme os antepassados
significa casar onde te casaste.

Ekuxo ti mwana a mwaniye
avahiwa pwiy`awe ntoko mwariye.
Ekuxo é a filha da filha
dada ao avô como sua esposa.

Vasiwe ekuxo namutheliwa yòhòtxeleya.
Onde se procurou uma ekuxo já casada,
não deu resultado.

Ekuxo kherino onamakoso nari matxipo a wuthelani,
khenthummwa
Ekuxo não tem testemunha,
nem cantos próprios do casamento,
ekuxo nunca se compra.

Mwarusi ole ekuxo ùla, yànamulaka amunniye pahi.
Ìneliwaka khatakansiwa ni asimwali akina.
Quando aquela menina ekuxo apanhava menarca,
só a avó é que lhe dava conselhos,
no rito da iniciação não se juntava com as outras raparigas.

Vovahaniwe ekuxo,
mixino sothene sinnamala.
Onde se dá a ekuxo,
todos os tabus acabam.

Ekuxo pwiyamwené: khanòva ehotti.
Ekuxo mwanene vaté: khenùliwa muru.
A ekuxo é como a matriarca: não teme as visitas.
A ekuxo é a dona da casa: não sente vergonha.

Ekuxo enavahaniwa mwapilili/wiphini/okhwipi,
enalakiwakaru ni munn’aya, khenakhuma mpani
nto enakilathiki mpaniru
wera ehusereke miteko sa amunna.
Tivanto enìtthaniwaya etxela vava /mpani,
ethelela vava/mpani, ekhwelela vava/mpani
mwahalaka vava/mpani
A ekuxo dá-se em segredo,
(na privacidade/intimidade doméstica),
é educada só pela avó,
nunca sai mas reside sempre na casa dela
para aprender as tarefas dela.
Por isso a ekuxo é chamada
aquela que goza aqui em casa,
aquela que casa aqui em casa,
aquela que morre para casa (ama os avós).

Ekuxo khenamuhasula mulopwana (apwiy’aya)
khenamòva, nto enammwiwelela,
yùnnuwaka mpani mwawe.
A ekuxo não maltrata o homem (o seu avô)
não tem medo dele, mas o escuta,
crescendo na sua casa.

Ekuxo khenahasuliwa, khenahiwa.
A ekuxo nunca deve ser maltratada nem deixada.

Opankiwa ekuxo onovileliwa tho.
Ser feita ekuxo suporta-se/é sofrimento.

Ekuxo makeya anaveli a etthoko.
Ekuxo é a segunda Makeya do lar.
(oferta, sofrimento, imolação para vida)

Ekuxo eleva-murima ya munna.
A ekuxo é a oferta-de-coração para a avó.

Ekuxo khenilemeliha vamaithoni vamunn`aya.
A ekuxo não se faz pesada em relação à sua avó.

Ekuxo enahakalala ekhovelenlene.
Warenttela amunna kahiyene nihiku nimosa.
A ekuxo alegra-se depois de acostumar.
Suceder a avó não é uma coisa de um só dia.

Ekuxo khenarapura masu amunn`aya.
Ekuxo kheninana ni amunn`aya.
A ekuxo não despreza as palavras da sua avó,
não se inimiga com a sua avó.

Ekuxo kahiyene etxisiro ya wothelani.
A ekuxo não é uma escrava do casamento.

Ekuxo khenahiwa: mwikho.
Omwalana ni ekuxo okhale otthuna wa Muluku.
A ekuxo não se deixa: é tabu.
Separa-se da ekuxo
só quando é vontade de Deus (com a morte).

Ekuxo kahiyene mukela-mpa,
niwoko mukela-mpa onapakiwa akhwiyene.
A ekuxo não é a sucessora,
pois a sucessão realiza-se com a morte.


Imagens, analogias

Ekuxo matthuwa a wothelani.
A ekuxo no casamento é como as pedras lareiras.

Ekuxo nihuta nohuluma nomukhomaliha mutheli.
A ekuxo é como o embrulho silencioso
que fortifica o esposo.

Ekuxo nttipho/nihottha nottuli/eruwa:
osunka itthu sitokotoko.
A ekuxo é como um frasco/um bolso de atras/o termiteiro:
guarda grandes coisas.

Ekuxo pwiyamwené: enathokorora sothene.
A ekuxo é como a matriarca:
guarda tudo.

Ekuxo nipiko: khannolihaniwa.
A ekuxo é como a missanga: não se empresta.

Ekuxo muhuwó: onarera ni otxiha.
A ekuxo é como a cria: fica bem quando se alimenta.

Ekuxo ti ephome enyowani ya etthoko.
A ekuxo é o novo sangue do lar.

Ekuxo epharamela: enoneya enari ekhani.
A ekuxo é como a borbulha: vê-se quanto é pequena.

Ekuxo ekuwo enyowani: orera owara.
Ekuxo ekuwo yokhomanya: enathatuwa enyowani.
A ekuxo é como uma capulana nova: anima usar.
A ekuxo é como a capulana concertada: torna-se nova.


3- Munna: a avó

Na biosofia e biosfera xirima a avó recebe a denominação de munna que significa irmã ou irmão. Já nesta nomenclatura do parentesco se anunciam premissas chocantes que não correspondem por nada com a mundo-visão do parentesco ocidental patriarcal. Mas isto será tratado mais à frente, quando se avaliará globalmente o estatuto da ekuxo.

A avó/Munna na familia alargada é o ponto centripetal e centrifugal da família, todo o parentesco e a conhadia vira em redor dela, sendo ela a administradora do celeiro, da comida, do andamento e comportamento de todo o horizonte doméstico alargado/clánico. Segundo a tradição as filhas casam-se com residência uxorilocal e sororal, vivem em redor da casa da mãe assim como todos os netos e netas dela. Ekuxo é uma destas netas uterinas que a munna de acordo com o conjunto do parentesco uterino escolhe para que seja tal em sua casa. A iniciativa da escolha da ekuxo parte sempre da munna ou do parentesco uterino, nunca pode partir do lado do avô.

Ovahiwa ekuxo wiwanana ni asitokwene a epumpa.
Ekuxo nroromelo ni nttittimiho na asinene epumpa
mwaha wa miteko sorera mulopwana enraiye.
Ser dada a ekuxo vem de um acordo do parentesco uterino:
é sinal de confiança e de respeito do parentesco uterino para com o avô,
devido aos bons trabalhos por ele realizados.

Ekuxo khanàsiwa mmalapo.
A ekuxo nunca se procura no estrangeiro
(fora do parentesco uterino).

As motivações para aplicação do estatuto da ekuxo na biosofia e biosfera xirima são em primeiro lugar de ver na situação psicosomática da munna. A ekuxo é normalmente uma neta da terceira geração ou uma bisneta da quarta geração. Neste caso a munna é já velha, avançada na idade e limitada nas capacidades operativas no horizonte doméstico. Além disso entra na conta também os fenómenos fisiológicos da menopausa, da diminuição da actividade íntima sexual. Nestes casos a munna toma a iniciativa de ter em casa uma neta ou bisneta que a ajude nas tarefas domésticas e a substitui também na dimensão afectiva e sexual para com o marido.

Eis uma descrição sintética.
Anakilathi asitokwene ewehaka wi amwariye ale àhùluvala. Mutthu ole, khaphwanenle omulusa arowaka watteya okina. Amusi anavanela onvaha mwarusi ekuxo emukumihaka mwa erukulu ekhani. Owani ekuxo ennaleliwa wakhavihera amunna ni apwiya aya. Vakhani vakhani amunna annamuhusiha sothene sa othiyana: othuna, opopha ihuku, owana mikhova. Nomalá ekuxo enapatxera wakhovelela amunn’aya ni apwiy’aya.
. Os responsáveis do parentesco uterino reúnem-se porque reparam que a avó já envelheceu, mas não merece perder o seu esposo indo a poligamiar outrora. Decidem em lhe dar a ekuxo, tirando-a da família restrita. Uma vez em casa dos avós, a ekuxo é educada a ajudar a avó e o avô. Aos poucos a avó ensina a ela tudo o que se refere à erótica feminina: dilatar os lábios, fazer tatuagens, vestir misssangas. Por fim a ekuxo vai-se habituando com a avó e com o avô.

A primeira motivação a ser mencionada para a escolha da ekuxo é vista na velhice da avó. Por isso ela junto com o parentesco uterino toma a decisão e a iniciativa de procurar a ekuxo apropriada. O parentesco toma em séria consideração a vida da avó, a avalia positivamente dando-lhe uma ekuxo. È importante ter presente este aspecto para não confundir o costume da ekuxo identificando-o logo com a poligamia de iniciativa do homem (watteya), como se há de ver mais à frente.

Ekuxo mwali onàrenttela amunn’awe yùluvala
mpuwa motheliwani.
A ekuxo é a neta que sucede/substitui a avó envelhecida
dentro dos assuntos do casamento dela.

Ekuxo enètta ni wuluvala wa munna.
Amunna yakotá, onnamwàsera mwalopwan’awe ekuxo.
O estatuto da ekuxo existe por envelhecer a avó.
Uma volta esgotada, a avó procura ao marido a ekuxo.

Ekuxo eri etthu yomuttittimihera muthiyana ùluvanle.
Ekuxo é um acto de respeito
para com a avó que envelheceu.

Muthiyana ùluvala ti ehipa yolala: khanarihiwa,
nto onnaseriwa karumeya/murumeyi/ekuxo: itthuweke.
A avó velha é uma enxada gasta que não se deita,
mas lhe se procura uma ajudante/servente/ekuxo,
para que descanse.


Imagens/analogias

Ekuxo ttotto a munna.
A ekuxo é a bengala da avó.

Ekuxo ettuli ya munna.
A ekuxo é a representante da avó.

Ekuxo ekhulula ya munna
A ekuxo é a fita da menstruação da avó.

Ekuxo eleva-murima ya munna.
A ekuxo é a oferta-de-coração para a avó.


Os textos que seguem, manifestam outros motivações positivas que levam ao estatuto da ekuxo. Paradoxalmente a ekuxo entre os avós é sinal demonstrativo do amor deles, sinal inclusivo e não exclusivo, emblemático e não sintomático ou problemático.

Munna a miruku omusivela iy’awe
t’onanvaha ekuxo.
A avó sábia é aquela que dá ao seu marido a ekuxo.

Munna onamuvaha iy`awe ekuxo
oromuttela murima.
A avó dá ao seu marido a ekuxo
porque se alegra com ele.


Cada estatuto social, também o da ekuxo tem os seus deveres: a avó para com a neta e a neta para com a avó. Latente ou patentemente as normas mencionadas nos seguintes textos estão a indicar que também este estatuto doméstico não é fácil de realizar, embora as boas intenções para com a avó. Existem resistências psicologicamente compreensíveis e prevedíveis da parte da avó e também da parte da ekuxo.

Munna owaseriwa ekuxo khanalalamika etthu.
khanìnlela ehatxe,
onahala winyerera sothene ni murima wothene,
miteko sothene sa munna sinavariwa n’ekuxo.
A avó ao lhe se procurar a ekuxo,
não deve lamentar-se com ela,
nem deve ser ciumenta em relação a ela,
lhe deve entregar tudo de todo o coração,
assim a ekuxo faz todas as tarefas dela.

Ekuxo khenarapura masu a munn`aya.
Ekuxo khenìnana ni munn`aya.
A ekuxo não deve desprezar as palavras da avó.
não se inimiga com ela.

Vari ekuxo, khavarere orika wettiha.
Não se vive sem dificuldades o costume da ekuxo.

Munna khanasa ekuxo othiyana ohanle:
ematta emosá khenùheriwa ipaso pili.
A avó não procura a ekuxo, sendo ainda no seu vigor,
pois não se derruba uma machamba com dois machados.

Mulopwana avahiwá ekuxo
khanamuhiya mwariye a khalai ahikhwiye.
O homem (avô) se receber a ekuxo,
não deixa a sua antiga esposa, enquanto não morreu.


4- Apwiya, Atata a vate: o avô

Depois de ter gerados filhos e filhas, e estes por sua vez ter gerado outros filhos e filhas e estes também....., o avô é verdadeiramente apwiya a vate, praticamente é parte integrante da família alargada uterina, por isso recebe como promoção definitiva o nome de atata a vate, o verdadeiro senhor do lar ou o outro tio materno, o homem cuja virilidade e masculinidade foi recebida e absorvida simbiótica e osmoticamente pelo lado da esposa ou pelo lado uterino. Por isso a esposa, a munna, pensa em dar-lhe uma neta ou bisneta para que o marido continue a viver com ela, a fecundar toda a família uterina .

Eis uma descrição sintética.
Mulopwana onayariwa ni ekwah`awe: wothelani. Wothelani weiwo mulopwana onnàyara anamwane ni onnaphwanya osulu. Vaholo muthiyan’awe onnùluvala. Nto osulu wàyara, annasara anamwane. Muthiyana onimòna wera kòhùluvala ni orowa olusi ni okhunini nkinwerya. Muthiyana onnasuwela tho wera aiy`aka arwiye khalai ni ti a murette. Ekuxo ti omurenttela muthiyana òwùluvala. Mulopwana onnamwàkhela mwali ni siso etthoko ennaphwaherera. Mwa yeyo mulopwana onnamuthela musulu awe mpaka omuyarano anamwane. Munna ole khanamuhasula mwali ole, onnamuruma itthu sothene ni mwali khanakhotta. Makholo mantxipale annasuwelaxa sa ekuxo. Vanano yòmala.
O homem nasce com a sua viagem: a do casamento. Lá no casamento, ele gera os seus filhos até receber netos. No entretanto a sua mulher envelhece, enquanto que os netos gerando, ficam com muitos filhos. A mulher sente que está velha e não consegue ir ao poço ou a buscar lenha. Também sabe que o marido veio há muito tempo e é um homem de paz. Então a ekuxo chega para suceder a avó que envelheceu. O homem recebe a rapariga e nesta maneira o lar continua, isto é, o homem casa a sua neta até gerar filhos com ela. A esposa velha não maltrata aquela rapariga, a manda fazer tudo e ela não recusa. Muitos dos antepassados conhecem bem o estatuto da ekuxo. Agora já terminou.

A iniciativa da escolha e da entrega da ekuxo vem do lado da avó/uterino e não do lado do avô/paterno, porém mira guardar, confirmar e perpetuar o casamento do avô com a avó. O parentesco uterino não quer perder o capital viril do avô, lhe entrega a ekuxo para evitar quaisquer tentativas de fuga dele.

Ekuxo ya makholo enahima othela vathenlawe’vo,
enavahiwa alipa orehera sa wothelana.
Ekuxo dos antepassados significa casar-se
onde o homem se casou,
a ekuxo é dada a quem realiza bem o casamento.

Ekuxo ya makholo ekhumale wuthelani.
ti mukuso/nlutte/nivatta nanaveli na wothelani,
nihuta nomukhomaliha mutheli.
O estatuto da ekuxo dos antepassados
vem do casamento,
é como a sua cerca/corda/segunda forquilha/
embrulho que fortifica o esposo/avô.

A instituição da ekuxo não é uma norma de aplicação geral na biosofia e biosfera xirima, mas uma norma estritamente doméstica, particular, excepcional, que prevê e supõe um acordo a nível de parentesco uterino. Sem este acordo não há ekuxo.

Epumpa yokumiha ekuxo ennìwanana phama,
vakhanle wapa, ekuxo khenkumihiwa.
A familia uterina que tira a ekuxo, está bem de acordo,
se houver murmurações/desacordos, não sai nenhuma ekuxo.

Não todas as amunna pensam em trazer em casa uma neta ou bisneta, pois em lugar de a ajudar a viver e a sobreviver, pode tornar-se uma rival que até acelera a sua marginalização e morte, como certos conselhos estão a sugerir. Mas sobretudo não todos os apwiya recebem como oferta e dom da parte da parentesco uterino uma neta ou uma bisneta. È afirmação geral que a ekuxo se entrega ao pwiya só no caso em que ele realize determinadas qualificações particulares e especiais. O avô deve ser um homem que durante toda a sua vida não teve problemas nem milandos, é portanto um homem/esposo/avô justo, dedicado. A ekuxo é um dom merecido, nunca exigido e dado a quem não o merece. Os textos são inúmeros e explícitos. Eis as principais qualificações:

Vari ekuxo, yòkhala evahero.
Ekuxo eri ntoko ekari: enommorela mulopwana.
Onde há ekuxo, ha oferta/entrega,
é boa sorte que cai em favor do homem/avô.

Makholo yànasuwela otthuvela.
Ekuxo ti malivelo a wothelani.
ti pulaisi a mutheli, ti yovaha ya mutheli.
Os antepassados sabiam remunerar.
A ekuxo é uma retribuição ao homem/avô,
é uma gorjeta, uma oferta para ele.

Mutheli èttihá phama mothelani
onovahiwa ekuxo wera atheleke.
Se o esposo se comportar bem no casamento,
recebe a ekuxo para que a case.

Othela ovara muteko w`amalapo.
Ovilela oruha eparakha. ekuxo
Casar é trabalhar no estrangeiro (no parentesco não uterino):
pacientar traz boa sorte, isto é, a ekuxo.

Mwene a miruku t’onavahiwa ekuxo.
Ao rei sábio é que se dá a ekuxo.

Ovahiwa ekuxo ti otxeya itthu,
Ser dada a ekuxo significa gozar
(gozar dos frutos das fadigas feitas).

Mutheli onawehiwa murima awe,
Ekuxo khenathummwa ni nikhopiri, nto ni murima.
murim’awe warí worera, onvahiwa ekuxo
ntoko enenero yokupaliwa, yottittimihiwa, yoxukureliwa,
yoririwa murima, yowepesiwa, yororomeliwa,
O esposo é observado no seu comportamento,
pois a ekuxo não se compra com dinheiro, mas com o coração.
Se o coração do esposo for bom, recebe a ekuxo
como sinal de fé, de respeito, de agradecimento,
de veneração e de confiança.

Ekuxo onavahiwa namahala,
onasuwela wahuwa atthu
khanaphwanenle ovinya’vo
ni omulusa arowaka watteya okina.
A ekuxo é oferecida ao bondoso que sabe criar pessoas,
não merece perdê-lo, saindo e indo poligamiar outrora.

Makholo yàhìwanana wera:
mulopwana ole anaphwanela ovahiwa ekuxo,
wera attuwalihiwe owani, intake mukwaha oyaka owani,
ahitthawe nari ahivinye èttaka ni athelaka ottai,
mene emexeriwe ni apwahereke ovara miteko vavale,
ayare ni ahuwe anamwane.
akameliwaka ni akhomalihiwaka,
Os antepassados concordavam
que o avô merecia receber a ekuxo,
para que se esquecesse da sua casa,
interrompesse a viagem de regresso a casa dele,
não fugisse e andasse a casar-se longe,
mas que ficasse retido e continuasse a trabalhar na casa da avó,
gerasse e criasse filhos, ficando assim ocupado e revigorado.

Ekuxo Mulukú:
enavahiwa murima worera.
A ekuxo é como Deus:
recebe-se pelo coração bom.


Impedimentos
Eis os principais impedimentos para a entrega da ekuxo ao avô:
Ekuxo orika ovahiwa, khenavahaniwa piswa
khanavahiwa akhalaru mulopwana òthela.
Khweli ekuxo khayàntte atthu ovahiwa.
Khanavahiwa ekuxo ahithenle nari ohitheleiha,
ohiyara, namakani, mulolo, òresi, wunnuwa muru,
mukhwiri, namwiya, ahettihaka ntheli phama.
È difícil merecer a ekuxo, não é dada de qualquer maneira
nem a qualquer homem esposado,
na verdade são poucos aqueles que a recebem.
Não se dá ekuxo a um não casado
e não hábil ao casamento, ao estéril,
ao teimoso, ao malandro, ao preguiçoso,
ao cabeçudo, ao ladrão, ao feiticeiro,
ao incapaz de conduzir bem o casamento.

Ekuxo khanavahiwa kharamu /havara
Havara khanavahiwa ekuxo.
Ekuxo ehipa: khanavahiwa noresi.
Não se dá a ekuxo ao leão/leopardo.
A ekuxo é a enxada: não se dá ao preguiçoso.

Ovahiwa ekuxo kohiyono woviwa.
khenthummwa, kheninleliwa,
khenìkuxeriwa, khanìthanleliwa,
hatá mulopwana khanaleliwa otthuveliwa.
Não se recebe a ekuxo por ser temido,
não se compra nem se deseja ,
nem se escolhe nem se toma para si,
até o homem nem é informado que será remunerado com a ekuxo.

Onavahiwa ekuxo khanalikanxiwa,
khenesiheraniwa.
Quem é dado a Ekuxo não se imita,
não se contrata.

Ekuxo khenavahaniwa niwoko na otokwene.
A ekuxo não se dá por causa de ser grande.

Ekuxo minepa: enatthuna vanalimmwa.
Ekuxo é como o espírito: quer onde se capina.


5-Definição do estatuto da Ekuxo:
Ekuxo watteya ni murettele. poliginia pacífica especial

Depois da descrição pormenorizada das três pessoas que entram em jogo na instituição da ekuxo, é possível agora tomar em consideração as definições correntes. Já se acenou no início às duas avaliações espontâneas que ao ouvir falar da ekuxo, logo vêem nesta instituição uma prática explícita de incesto e o início da poliginia. Na verdade os textos que consideram a instituição da ekuxo como poliginia não são poucos nem ambíguos, até consideram a instituição da ekuxo como a causa genética da poliginia, uma abertura ou brecha inicialmente provisória que com o tempo se tornou uma constante e uma norma.

Ekuxo yamwatteiwa ni amunn`awe.
Vakhanle ekuxo, munna àthatuwa namwatteiw`aya.
A ekuxo poliginia com a sua avó:
Onde havia a ekuxo,
a avó tornou-se sua colega de poliginia.

Mulopwana onvahiwa ekuxo, ori namwatteyi:
Vakhanle ekuxo pwiyapwiya anathatuwa mwariye.
O avô ao qual se dá a ekuxo, é um polígino.
Onde havia a neta ekuxo, tornava-se sua esposa.

Ekuxo yòruha wakulana wa asilopwana
ahavahiwa ekuxo: t’eruhale watteya.
A instituição da ekuxo trouxe discordia entre os homens
que a não recebiam: dai veio a poliginia.

Matthoko yahakhala ekuxo,
asilopwana yánavinya orowa omuthela
mwali a etthoko ekina yatteyaka
Nos lares sem ekuxo, os homens saíam
indo casar uma rapariga doutro lar: faziam poliginia.

Porém outros textos se recusam de identificar o estatuto da ekuxo com a poliginia oficial corrente. De facto trata-se de poliginia especial que não pode ser identificada com a poliginia corrente. Justamente os textos seguintes especificam as diferenças entre as duas instituições:
- o acordo da ekuxo parte do parentesco uterino/materno, enquanto que a poliginia corrente é uma iniciativa do homem/parentesco paterno;
- ekuxo é poliginia em paz e não de ciume como acontece muitas vezes com a poliginia corrente onde as colegas chegam a matar-se entre elas;
- as habitações da avó e da ekuxo ficam juntas e não distanciadas como na poliginia oficial;
- a ekuxo é única, enquanto que a poliginia corrente admite mais de duas mulheres.
- a ekuxo nunca pode ser considerada come um pedido de segundo casamento como é de praxe com a poliginia corrente.

Ovahiwa ekuxo kahiyene watteya.
kahiyene watta w`athiyana.
Ekuxo kahiyene nvanelo wa wothelani.
Ter a ekuxo não é poliginiar,
não é ter muitas mulheres,
não é uma combina/iniciativa do homem.

Watteiwa wa ekuxo khawakhaleleniwa ehatxe:
wari watteya ni murettele.
Na poliginia da Ekuxo não hávia ciúme:
era uma poliginia em paz.

Ekuxo kahiyene ovekela veli othela.
Ekuxo não é pedir um segundo casamento.

Impa sa asithiyana ale sàkhala vamosá,
wera osulu ole wápasopeke amunneiye tho.
A casa da avó e da ekuxo ficavam juntas,
para a ekuxo cuidar da avó.

Khuwavo ovahiwa ikuxo pili, koma emosá pahi.
Nunca se dá duas ekuxo, ma só uma.

Asilopwana anàtteya vohikhala ekuxo,
aruha oramana wa asithiyana owatteiwa.
Asithiyana owatteiwa itthoko sovirikana
annawanawana mpaka wivana.
Na ausência da ekuxo, os homens polígamos
trouxeram ambição entre as mulheres poliginiadas
até lutar e matar-se entre elas.

Ekuxo kahiyene korokopiko.
onalemelela ninno ninno.
A ekuxo não é uma canga
que pesa tanto de um lado (avó) quanto do outro (ekuxo).
(poliginia especial)


Outros textos favoráveis ao estatuto da ekuxo negam que a presença da ekuxo estrague o casamento, mas em geral é considerada um costume que consolida o casamento dos avós.

Ekuxo kahiyene omwaramwara wa ntheli.
Ekuxo kahiyene nsala/nthala na wothelani.
A norma da ekuxo não é divórcio do casamento,
não é a lixeira/machamba velha do casamento.

Ekuxo kahiyene nihasu/nttaruxo na ntheli.
A instituição da ekuxo não é pensada
como castigo e como punição do casamento.

Ekuxo kahiyene ehaka ni murette
onlamiha iretta sa wothelani.
Ovahiwa ekuxo kahiyene oxera maitho.
A ekuxo não é adivinhação nem remédio
para curar doenças do casamento nem faz avermelhar os olhos.

Ekuxo kahiyene ekhupelela ya asithiyana wothelani.
A ekuxo não é uma acumulação de mulheres no casamento (poliginia).

Ekuxo kahiyene epharantatha ya wothelani.
A ekuxo não é a comida de reserva do casamento
(que só os dois esposos conhecem).


6- Outra definição da norma Ekuxo:
Incesto/ligação entre consaguíneos

Incesto/ligação entre consanguíneos é uma segunda definicão que se costuma dar à norma da ekuxo.

Vovahaniwe ekuxo,
mixino sothene sinnamala.
Onde se dá a ekuxo,
todos os tabus acabam.

Também deste ponto de vista pode-se conceder que o costume da ekuxo é admissão do incesto, mas também aqui é preciso distinguir, ter presente as devidas atenuantes. Normalmente com incesto pensa-se em atitudes libidinosas desregoladas. È sintomático o facto que nos textos apresentados a problemática do incesto parece por nada percebida nem ainda menos levantada e denunciada do ponto de vista psicológico (ekuxo impúbere ou impubescente; velhice avançada do avô) assim como do ponto de vista ético. E isto é ainda mais paradoxal se se tem presente que o hábito da ekuxo parece estar em plena contradição com a biosofia e biosfera matrimonial macua xirima, extremamente alérgica a quaisquer forma de incesto, sendo um tema fortemente denunciado e deprecado nas iniciações. Portanto também no contexto da ekuxo é preciso falar de uma forma especial de incesto, de incesto em traspas, de incesto mitigado, permissivo, até recomendado, aconselhado e merecido perante determinadas situações.
Em primeiro lugar parece ser uma forma permissiva tolerada de incesto, por ser realizada na terceira ou quarta geração. De facto a ekuxo nunca é uma neta ou bisneta consaguínea directa da avó, mas uma neta ou bisneta uterina indirecta de uma sua parente afastada na árvore genealógica.
Em segundo lugar ekuxo não é norma universal e geral para todos as famílias, mas aplica-se saltuária, selectiva e oculatamente, onde a vontade decisional uterina da munna é determinante. Nunca se deveria esquecer que o estatuto do ekuxo não é devido a iniciativa ou a bramosia desregolada do avô. Esta instituição vai na verdade à sua vantagem, mas não é ele que a exige nem ainda menos a pode pretender ou desejar como seria no caso da poliginia corrente, onde é o homem que toma a iniciativa, decide o número das mulheres, o quando, o como e o onde conviver com elas. No caso da ekuxo o específico está no facto confirmado por todos os pesquisadores que é a munna de acordo com a sua família uterina que pensa em oferecer ao avô uma neta ou bisneta como ekuxo.
Além disso, há uma terceira componente no costume do ekuxo que quebra as coordenadas de juízos comuns. A ekuxo é um dom, é um prémio, um sinal de agradecimento não a todos os avós sem distinção, mas só aqueles avôs que o merecem devido ao seu comportamento impecável a todos os níveis: doméstico, civil, ético e religioso. Por esta mesma razão a munna e com ela toda a rede do parentesco uterino não quer perder o capital positivo que a virilidade do avó demonstrou para com a família, portanto quer que continue e se concretize na convivência aditiva com a neta ou bisneta. Esta convivência muitas vezes consiste em substituir a munna nas tarefas domésticas como ir buscar água, preparar comida, mas pode chegar ou pelo menos no passado era norma chegar também a ser convivência íntima e gerar filhos, e tudo isto visto e julgado ainda hoje não eharamu/tabu, mas ehalali/bem, isto é, uma norma boa, sã que os antepassados com a ajuda de Deus e dos espíritos encontraram para a vida abundante da família alargada uterina.

Ekuxo ti ephome enyowani ya etthoko
Ekuxo mukuso/nlutte na wothelani.
Ekuxó é sangue novo da família
Ekuxó é a cerca/fio no casamento.


Em quarto lugar a ekuxo é uma norma que admite/tolera ligações consanguíneas, mas não se trata de uma norma pública, mas doméstica, secreta, íntima e privadamente combinada e realizada no horizonte uterino da família alargada, como o confirmam também as várias denominações que a ekuxo recebe : etxela va/mpani; ethelela va/mpwani, mwakhalaka va/mpani.

Ekuxo enavahaniwa mwapilili.
Ekuxo dá-se em segredo/na privacidade.

Em quinto lugar, a ekuxo é um habito assistencial que a família alargada aplica em favor da avó e do avô, uma espécie de reforma xirima ou algo que pode fazer lembrar um substituto dos centros/asilos ocidentais de assistência aos velhos, tendo presente que a avó e o avô graças a Deus na biosofia e biosfera xirima continuam ainda ser no ambiente rural as duas colunas principais da família alargada, para as quais todos os membros uterinos reservam todo o respeito e veneração até chegar a tolerar uma brecha totalmente particular na ética (incesto tolerado) em favor dos avós .

Mpuwa mwa makholo ahu ekuxo ti osamariwa
mulopwana ni muthiyana a murima worera.
Segundo os nossos antepassados
a ekuxo é o cuidado para os avós de bom coração.


7- Desaparecimento do costume da ekuxo

Afirma-se que o estatuto da ekuxo desapareceu em ambiente urbano e suburbano quase totalmente, enquanto que no ambiente rural está desaparecendo lentamente. Alega-se como prima motivação o facto de ter sido uma brecha permissiva no tecido ético em contraste com a biosofia e biosfera xirima, declaradamente exógama e alérgica a todas as formas incestuosas. Outra motivação é vista na forte luta aos casamentos prematuros promovida pelo Governo Moçambicano desde a sua independência. Outros vêem a causa do desaparecimento da instituição da ekuxo a partir da evangelização. Por ser poligínico e incestoso, desde os inícios a acção missionária considerou o costume da ekuxo contrário à ética cristã e às normas mais elementares da psicologia e da antropologia. Os pesquisadores e as pessoas intervistadas pelo contrário enumeram como primeira e verdadeira causa do desaparecimento do estatuto da ekuxo a mudança do estatuto da família. De alargada está a se tornar sempre uma família restrita, limitada, egotrópica, monádica, de maneira que o costume da ekuxo não teria mais alguns sentidos.

Wa mahiku olelo ekuxo yomala mwaha wa maveho,
mahiku olelo itthoko khasinalipa
asithiyana khanakhulela mukhalelo wa ekuxo.
Nestes dias o hábito da ekuxo já acabou devido aos abusos,
além disso a família actual é fraca
e por fim a mulher hoje não aceita mais o costume da ekuxo.


8- A avaliação positiva do estatuto da ekuxo

Embora seja algo de superado, numa visão retrospectiva, ainda hoje a instituição da ekuxo recebe uma avaliação global positiva.

Mpuwa mwa makholo ekuxo kahiyene yottheka
nari khenùliwa muru (eharamu),
nto ti etthu yorera (ehalali).
De acordo com os antepassados
a norma da ekuxo não é pecado,
nem é vergonhosa como fosse eharamu,
mas é uma boa instituição como ehalali.

Mpuwa mwa makholo ahu ekuxo
ti osamariwa mulopwana
ni mulopwana a murima worera
Segundo os nossos antepassados o estatuto da ekuxo
é amor/cuidado da mulher de bom coração para com o marido.

Makholo ahu khayapanka itthu piswapiswa.
yànasuwela etthu yeraya ni ekuxo.
sa ekuxo wari wasasa olipiha etthoko,
wari yovaha ya vatthokoni mwa osivelana.
sothesene seiya opattuxa Muluku.
Nisuweleke othanla yorera ni yonanara.
Othanla etthu yorera elapo t`enèttaya nnene.
Os nossos antepassados não faziam nada à toa,
sabiam o que faziam com a norma da ekuxo,
tratava-se de consolidar o casamento,
era um dom de amor aos casais/avós,
tudo isto é Deus que gerou.
Devemos saber escolher entre o bem e o mal,
é a escolha do bem que faz prosperar a pátria.

Ekuxo orera okhalano,
o erwiye ni makholo Onamuli.
ti enenero ya ikuru ni miruku sa makholo ahu.
È bem ter/receber a ekuxo,
esta norma veio dos antepassados do Namuli,
é sinal da força e sabedoria deles.

Ekuxo khenanara: oruha exariya vate.
A norma ekuxo não é má, trouxe justiça no lar.


9- Ekuxo e fé cristã: críticas e transposições

Em primeiro lugar salienta-se que a fé bíblica cristã não pode aceitar o estatuto da ekuxo tendo em consideração os óbvios inconvenientes psicológicos e biológicos, como imaturidade da menina e a idade avançada dos avós.

Mwekristuni ekuxo ti yottheka etokotoko,
niwoko muthiyana onnatheliwa ahùnnunwe.
Ekereja khenahakalala womòna mwarusi
atheliwaka ni mulopwana mutokwene.
Yesu kharwenle omaliha, nto okwanihera.
Ti worera otthara mukhalelo wa mukereja.
No cristianismo o hábito da ekuxo é grave pecado,
porque a menina é casada prematuramente.
A Igreja não se alegra ao ver a rapariga
a ser casada por um homem velho.
Jesus não veio para acabar mas para completar,
é bom seguir a norma da Igreja.

Nawehá nnene ekuxo nari nihasu na muthiyana
athelihiwa ayevalene/ohikhanle esinku awe.
Se repararmos bem no costume da Ekuxo
era castigar a menina a casar-se prematuramente.

Mwekristuni ekuxo khenatthuneya
niwoko mwali khanasuwela otheliwa wa phama.
Mulopwana mutokwene omuthela mwali,
khanìwanana phama sene.
No cristianismo não se aceita o costume da Ekuxo
porque a menina não sabe como casar bem.
O homem velho casando uma rapariga,
não se intende bem com ela.

Ekuxo khenneneva
niwoko etheliwe ni ephome yowoluvala.
A ekuxo não engorda, pois se casou com sangue velho.

Ekuxo enùnnuwa ntoko ekwasuni nari epottha,
khenahakalala enavaraya muteko.
A neta cresce como uma órfã/escrava,
não se alegra com o seu trabalho.


Por outro lado, o pesquisador xirima cristão vê na instituição da ekuxo uma imagens do casamento canónico, onde os parceiros são considerados um dom dos recíprocos parentes para que vivam sempre (khuluwi) juntos como acontecia com a ekuxo.

Mwekristuni ekuxo ti nsakramenti nothela
amusi annàvahera ekuxo amunna ni tho atata a vate,
wera ekhale vamosá khuluwi.
Adamu àvahiwa Eva
wera akhale mwariye mpaka okhwa.
Mulopwana ahakalale ni mwariye mmosã
ovahiwaiye ni Muluku.
No cristianismo a norma da Ekuxo é o matrimónio canónico:
os parentes doam- aos avós a ekuxo
para que vivam juntos para sempre.
Adão recebeu Eva para ser a sua esposa até à morte.
O homem alegre-se com a sua única mulher que Deus lhe deu.

Maxukureliwo ni ekuxo ni siso makhottihiriwo ovinya
t'onthuneya otthuka okwatti.
A forma de o avô ser agradecido com a ekuxo
e assim ser impedido de sair da casa
é querer o matrimónio canónico.

A transmissão da palavra de Deus de geração em geração é para o pesquisador cristão comparável ao costume da ekuxo oferecida aos avós numa troca e continuidade de vida. Assim fazendo a ekuxo se torna anel de conjunção genealógico da terceira/quarta geração com a geracão dos avós e ao mesmo tempo o inverso. Com a entrega da ekuxo os avós fazem um salto à frente de três/quatros gerações, e a ekuxo um salto atrás de três/quatro gerações.

Mwekristuni masu a Muluku
anohiyeraniwa ntoko ekuxo.
No cristianismo a palavra de Deus
entrega-se sucessivamente como a ekuxo.


Outras aplicações ou transposições fazem força sobre o aspecto do estatuto da ekuxo visto como dom, remuneração, prémio devido a comportamento positivo do avô.

Ekuxo Mulukú:
enavekiwa/envaheriwa murima worera.
A ekuxo é como receber um dom de Deus:
pede-se/recebe-se pelo bom coração.

Mwekristni ekuxo ti owela wirimu w`apwiya.
Mwekristuni ekuxo ti ovuwihiwa wa Yesu wirimu
No cristianismo o habito da ekuxo
considerado como prémio/reconhecimento
é comparável à ascensão ao céu de Jesus.

Mwekristu ekuxo ti owela wirimu wa Maria.
No cristianismo o costume da ekuxo
considerado como remuneração
é comparável à assunção de Maria.

Mwekristuni ekuxo
ti ottottopeliwa wa Muluku ni muloko awe.
No cristianismo a norma da ekuxo
considerada como gratificação/oferta
é comparável à glorificação que o povo tributa a Deus.


Por fim, sendo a biosofia e biosfera xirima não sexista, não recua em formular transposições totalmente inauditas que poderiam soar ofensivas e irriverentes aos ouvidos de outras culturas. Jesus como a sua mãe, Maria, recebem o paradigma da ekuxo, quando se salienta a entrega e imolação deles da parte de Deus para o povo cristão/para a Igreja.

Ekuxo eri ntoko Yesu
òvaheriwa ni Muluku ohuser’awe/ekereja awe.
A ekuxo é como Jesus na eucaristia
oferecido por Deus aos seus discípulos/à Igreja.

Mwekristuni ekuxo t’okaristya
Para o cristão a ekuxo é a eucaristia.

Maria ekuxo òvahereriwa ni Muluku atthu othene.
Maria é a ekuxo oferecida por Deus para toda a gente.

10- Avaliação final
Ao longo da análise do estatuto da ekuxo foi possível conhecer a sua instituição só parcialmente, sector por sector. Impõe-se agora a tarefa de avaliar o estatuto da ekuxo numa perspectiva global. Isto é viável vendo o estatuto do ekuxo, a sua génese e a sua justificação do ponto de vista da biosofia e biosfera xirima à luz filtrada de três prismas: o prisma da nomenclatura do parentesco macua xirima (a ekuxo irmã da munna), o prisma da ética xirima (ambiguidade e ambivalência das normas) e o prisma da concepção da pessoa (clánica, solidária, ego-plural) na biosofia e biosfera xirima. Visto destes três prismas, o estatuto da ekuxo torna-se compreensível e ao mesmo tempo faz compreender porque ainda hoje quando o macua xirima fala da ekuxo em retrospectiva, é-lhe difícil se não impossível considerá-lo como uma forma negativa, aberrante/eharamu, mas é convicção geral considerá-lo como um bem/ehalali.
Evidentemente compreender a génese da ekuxo e os seus elementos motivantes, não equivale a sua justificação e sua perpetuação na convivência social actual. Contudo valeu a pena o seu estudo analítico e objectivo que permite uma avaliação menos superficial e negativa. Afirma-se que este hábito típico da família alargada desapareceu nos ambientes urbanos e suburbanos, mas que tacitamente continua naquele rural sobretudo de religiosidade islâmica. Justamente a luta do Governo Moçambicano contra os casamentos prematuros ou improvisados (mas diminuíram ou aumentaram?!) assim como a evangelização levam por um lado ao desaparecimento do costume da ekuxo e por outro ao amadurecimento da sua personalidade e dignidade individual.
Contudo os pontos cardiais que o estatuto da ekuxo levantava e salientava no passado, não deveriam ser esquecidos. Viu-se em primeiro lugar que a norma da ekuxo era uma forma de reforma antiga para com os avós, sobretudo aqueles merecidos: um costume que procurava de dar assistência aos avós na velhice, sem esquecer que não se tratava só de um gesto assistencial, mas com ele salientava a idade dos avós como a idade da globalidade e da maturidade psicológica, ética e espiritual, a idade da polaridade vida para morte, morte para vida. Cuidar dos avós era cuidar em suma dos pilares da psicologia, antropologia, ética e teologia elementar da biosofia e biosfera xirima. Quem, movido por motivos filantrópicos ou por motivos ético-religiosos ontem lutou e hoje se congratula pelo desaparecimento do costume da ekuxo, não deveria porém esquecer o vazio que este apagamento deixou. Se a ekuxo ganhou marcas de pessoa, não por isso os avós, por serem improdutivos, analfabetas, débeis fisicamente, deveriam perdê-la, ser derrubados do halo de veneração que a biosofia e biosfera xirima sabia atribuí-lhes e que hoje a modernidade vai triste e tragicamente descuidando.
Outro ponto que o estatuto da ekuxo xirima salienta, é o conceito da pessoa e ao mesmo tempo o conceito da vida e da família numa perspectiva menos individual e mais plural, menos auto-referencial e mais etero-referencial, menos monádica e mais sinergética, comunhonial, convivencial que implica às vezes também imolacão e auto-imolação para que haja vida e vida em abundância. Significativamente umas das transposições da ekuxo no registo cristão focaram esta dimensão da ekuxo transferindo-a sobre a vida imolativa de Jesus e de sua mãe Maria.
Por fim, o étimo assim como o conceito da ekuxo (leva, pega, dom, oferta) anuncia um último aspecto relevante: o saber pegar do próprio e doá-lo/oferecê-lo a quem o merece, pressupõe que se tem olhos abertos e sensíveis para ver e reconhecer o bem, a generosidade, a honestidade alheia. Quando uma biosofia e biosfera cultural como aquela macua xirima, chega a ter esta sensibilidade em dar e doar porque recebeu, ninguém pode duvidar da sua bondade, é eucarística de inspiração e aspiração, como um dos pesquisadores com razão quis salientar.






















A sabotadora dos enterros

Ephomopo nvusa,
àhávitha amay’aye vamuru vaya.
A ave ephomopo/calau é sabotadora dos enterros,
sepultou a sua mãe na sua cabeça.


Introdução
Visitando as comunidades, a primeira coisa a fazer é sentar-se no alpendre e trocar-se as novidades. Ao hóspede é pedido as suas novidades pelo hospedante, e este por sua vez comunica as suas. A saudação e a troca de notícias nunca é colectiva, mas é individual, os poucos ou muitos hospedantes todos aguardam o próprio turno para formular a saudação. É nesta altura que se chega a conhecer não só as boas novidades mas também e sobretudo aquelas negativas, dramáticas como doenças que acabam com a morte.
Lembro uma vez que um animador me impressionou por vê-lo triste, emagrecido, sem a sua habitual boa disposição e cordialidade. Falou chorando da morte imprevista da sua mãe. Procurei consolá-lo como aliás já fizeram os seus amigos, mas as palavras via-se que caíam em vão, não encontravam eco positivo de adesão. Mais tarde um animador explicou-me a gravidade da situação, pois o enlutado não queria mais comer nem falar, vivia uma vida a-social e solitária. Por fim convidou-me a dizer umas palavras de animação concluindo: “Lhe fale, padre, porque ele está a tornar-se como a ave ephomopo que anda com a campa da sua mãe enterrada na cabeça”.
Naquela altura não entendi o sentido da alusão à ave ephomopo. Marquei no meu caderno o nome e, chegado em casa, falei com os pesquisadores do Centro de Investigação que logo me aprontaram o seguinte aforismo que completa a sugestão do animador, pois ele não me tinha falado da boicotagem da ave ephomopo em questão:
Ephomopo nvusa,
àhàvitha amay’aya vamuru vaya.
A ave ephomopo é sabotadora dos enterros,
sepultou a sua mãe na sua cabeça


1- Ephomoko: descrição biológica

Ephomopo mwapalame mutokwene, orakama ni olipa eyano, oluma munupi owunnuwa ni mapururu vamuru, oripa mapururu, nxiko nowuma, oxikineya maitho, olikana ni nampeya, othowaxa, ovava musulu yìpaka ni yikhupanyeraka, okhala mukhatxereni morakamaxa vamosá ni asikhwayaru, a nthalu
Ephomopo/calau é uma ave grande, de bico comprido, robusto e picante, é de cor preta, de cabeça enorme e com penas, de pescoço nu, de olhos vermelhos, é semelhante ao nampeya, é esporádico, voa chorando e queixando-se, de voo alto, mora na alta árvore Khatxere, vive em colónia só, é discriminante.

Iphomopo sinnètta vamosa
mpaka orowa elapo ehinoneya ya Muluku Namuli.
Os calaus andam juntos
até irem ao mundo invisível de Deus Namuli.

Ephomopo khentxa malaxi, enatxa inyunku,
sowima sa mukhatxereni, enakhuriwa, eri yosiva.
O calau não se nutre de capim,
mas de insectos, dos frutos do Khatxere,
é comido, sendo de carne boa.

Ephomopo khenkona vathi,
nto ennèmela miri sitokwene.
O calau não dorme no chão,
mas pára nas árvores altas.

Ephomoko enlikana ni nampeya ehuhu yorela, epuramelaka enimwìxasula, enimwìmarela, ehiyaka ekhwato ekhanene yoriviha minupi ni yotxa yele ephomopo mulopwana onruhaiye amutxihaka siso mwariye ni axan’awe; ephomopo muthiyana mapururu aya ennamela vamosá ni axan’aya.
O calau é semelhante ao nampeya quando choca, a fêmea depena-se, fecha-se, deixando um pequeno furo para passar o bico e a comida que o ephomopo macho traz, alimentando assim a esposa e os pintos; as penas do ephomopo fêmea vão crescendo-lhe junto com os pintos.

Muru wa ephomopo onalikana ni ekhapuri ya mutthu.
A cabeça de calau é semelhante à campa da pessoa.

Wohitheya iyano sa ephomopo, Muluku namakawa,
Muluku onnakawa sothene ni mukhalelo awe.
Não rias do bico do calau, pois Deus é distribuidor,
sim, Deus distribui tudo à sua semelhança.

Vanrapa iphomopo onyakula khonthowa.
Onde tomam banho os calaus não falta barulho.

Ephomopo mwapalame atthuna olikana ni nampeya.
Yokhalano exoxoro vamuru enlikana ni mahiye.
O calau é uma ave quase igual a Nampeya,
tem uma crista na cabeça semelhante a uma campa.

Ephomopo khenètta nnene
niwoko eri ni muritti mutokotokto vamuru.
O calau não anda bem
pois tem uma carga/crista enorme na cabeça.


2- Ephomopo: Metáfora

a- Ephomopo: o emprego do chapéu
A primeira aplicação ou interpretação da fisionomia do calau consiste no emprego do chapéu. O mestre da iniciação pergunta aos iniciandos quem foi que trouxe o emprego do chapéu/turbante, para que eles saibam que tal uso tem a sua origem teológica e a sua motivação e justificação antropológica.

Yaruwale owara etxirempa tani? Ti ephomopo,
kheyavo yopattuxiwa ya Muluku
ehinatthara ikano sa Muluku Namuli.
Quem trouxe o uso do turbante? Foi o calau,
não há criatura de Deus que não siga os conselhos de Deus namúlico.


b- Ephomopo: metáfora dos casais
A segunda aplicação é vista no comportamento especial do casal calau. Por um lado o calau macho durante o período da incubação dos ovos e depois do desovamento fica fora e sozinho para trazer comida à esposa fechada dentro da toca do tronco junto com os pintos até eles crescerem e conseguirem sair fora com a mãe. O comportamento do calau macho salienta metaforicamente uma das principais tarefas do marido/pai no lar: além de fecundar, vestir e sepultar, ele deve ser capaz de alimentar a sua esposa e todos os filhos que com ela gera.
Por outro lado, a calau fêmea fecha-se na toca, só deixando um furo para receber comida por parte do marido, depena-se completamente e assim se assemelha até fisicamente em tudo aos seus pintainhos, acompanhando-os no crescimento até à altura de abrir a fenda do ninho e sair com o pintos já adultos. Este comportamento da fêmea proclama comparativamente a acentuada maternidade na biosofia e biosfera xirima, a mãe chega até se identificar fisicamente com os filhos em tudo e por tudo.

Ephomopo mwamulopwana
t’enamutxukulela mwariye ni axan’aya.
Amuthelana evareke muteko
wera yàtxihe axan’aya.
Makholo annèra: otxiha othelana.
O calau macho é que alimenta a sua esposa e os seus filhos.
Os casais devem trabalhar para alimentar os seus filhos.
Os antepassados dizem: alimentar é casar.


c- Ephomopo nvusa: calau sabotador dos enterros
A terceira aplicação do calau como metáfora parte da sua crista, vista como mini-campa que porta sobre a cabeça em consequência do seu comportamento de sabotador dos enterros. Na iniciação sobretudo dos jovens insiste-se fortemente no dever de nunca faltar aos enterros dos vizinhos, da aldeia, dos parentes distantes. Na verdade, o falecimento ainda hoje é o evento dos eventos, ao qual ninguém se subtrai. Interrompe-se tudo e deixa-se tudo e todos, mesmo que isto custe e implique percas consistentes. Embora esta norma e a forte insistência durante a iniciação, há porém sempre quem encontra desculpas para não apoiar e ajudar nos enterros. Na devida altura não faltará quem lhe lembrará a história do calau que, por ser sabotador dos enterros, quando lhe faleceu a mãe, não sabendo como enterrá-la, acabou por guardá-la na sua cabeça e assim tornar-se um cemitério ambulante e crónico durante toda a sua vida.
Os pesquisadores assim como os mestres da iniciação salientam as consequências nefastas de tal comportamento negativo não só do ponto de vista da solidariedade social, mas também do ponto de vista psicológico e teológico.
Em primeiro lugar do ponto de vista da solidariedade, faltar sistematicamente aos enterros é o degrau extremo de asocialidade.
Em segundo lugar, o calau por não se desligar da campa da mãe, psicologicamente é um feto ou um embrião ainda não nascido, é uma criança crónica que nunca se desliga do útero e da dependência da mãe, sem corte umbilical não inicia o seu próprio caminho de maturidade.
Por fim, impedindo à mãe a grande viagem de regresso ao útero de Deus namúlico, o calau quer tornar-se ele mesmo namuli definitivo da mãe, um substituto de Deus namúlico, a sua impiedade é extrema.
O calau é portanto um invertidor total do sistema das coordenadas da biosofia e biosfera xirima:
- cemitério ambulante e crónico, enquanto que o cemitério normalmente não anda, no limite é visitado na devida oportunidade;
- sabota os enterros e menospreza a morte como não existente, mas ao mesmo tempo com a campa da mãe na cabeça mostra cronicamente a existência concreta da morte;
- ama a mãe mas não se desliga dela nem a deixa regressar à terra namúlica, à pátria de todos,
- vive mas quer conviver cronicamente com o cadáver da mãe, celebra a vida e ao mesmo tempo a morte cadavérica.

Ephomopo khayasuwenle okhwa,
ahiyale nroromelo na Muluku Namuli:
yàhàvitha amay’aya vamuru,
khweli mahiye aya ari vamuru vawe.
ni eyano aya etokwene ti poxoro omahiye.
O calau desconheceu a morte, perdeu a fé em Deus Namuli,
pois enterrou a mãe na cabeça,
na verdade o seu cemitério está na cabeça,
o seu enorme bico é a pá do cemitério.

Yìnlaka ephomopo enalattula mariro a amay’aya, yìkhupanyera mota wowàvitha amay’aya. Okhala wera khatthuna okhavihera sa mariro, amay’awe yakhwiyaya, atthu yàmuhiyera wera àsunkeke mwanene. Ahisuwelaka mota womuvitha mutthu, ti vavale atthukalaiye amay’awe mmwinlini ni ànawireya ni ànàvitha vamuru vawe, yèttakano ìnlaka ohawa wawe mpaka olelo khenasuwela witthuwela muritti ole. Enahima wi ovusa etthu yonanara: vari ikharari watta soluseya,vari mariro olimiha myono, nto vaxamalo onnaphwanya, niwoko Muluku onnamuhokoloxera sothene.
Chorando o calau convida ao funeral da mãe, queixando-se por como enterrá-la. Dado que não queria ajudar nos enterros, quando faleceu a mãe, as gentes o deixaram sozinho a realizar o enterro. Agora não sabendo como se enterra uma pessoa, acabou por envolver a mãe numa esteira, carregou-a e enterrou-a na sua cabeça, andando com ela a chorar o seu sofrimento, até à data não sabe depositar aquela carga. Isto para os antepassados significa que sabotar os enterros é mau, pois onde há pena, perde-se muitas coisas, onde há enterros, os braços tem que cavar, mas ao amanhecer recupera-se logo, pois Deus devolve tudo.

Ephomopo ennètta ni muttembo wa amaye,
khenàhiya amay’aya ekhwiyene,
enimwèttano ni enìnla ni muttembo aya vamuru,
enamakela okhweliwaru, kherino mahiye,
ahihikaka amay’aya otthikela owani o Namuli.
O calau anda com o cadáver da mãe,
não deixa a sua mãe morta,
anda com ela e chora com o cadáver dela na cabeça,
é sempre enlutado e sem cemitério,
proibindo a sua mãe de regressar a casa namúlica.

Nsina na ephomopo ti kòná kinottotta.
Eximola khenathipa mahiye.
Wettana mahiye ori ohawa.
Mulipa okhwa khanahiyeraniwa.
O nome do calau é: se eu vir, hei-de apanhar.
A esmola/dinheiro não cava a campa,
frequentar os enterros é sofrimento.
o defunto não se deixa para os outros.

Mutthu khanèttano mahiye ntoko ephomopo.
Mahiye khanetta, nto onimwera wetteliwa.
A pessoa não anda com campa como o calau.
Os cemitérios não andam, mas são frequentados.


d- Ephomopo/calau: metáfora iniciática

Munòna ephomopo yùnnuwalene muru
muhitheye, ekuxale mahiye amay’aya.
Se vires o calau com cabeça enorme
não rias dele, porque leva a campa da sua mãe.

Makholo annàlaka an’aya omwalini:
muhaleke mukhaviheranaka,
muhikuxe murima wa ephomopo,
khenaruha osivelana nari omusi.
txonde, muhivuse mariro,
nto mukhaviheraneke omuvitha mutthu.
Os antepassados educam assim os iniciandos:
deveis ajudar-vos,
não imiteis o comportamento do calau,
não produz amor nem parentesco,
por favor, não sabotem os enterros,
mas ajudem-se nos enterros.

Mpuwa mwa makholo ahu,
Ephomopo kherino miruku,
enònihera ntoko mutthu òhìneliwa,
ohureya, ohikharari, a nthalu ni owikuxera,
ekhalelo ya okhwasuni,
yàlipelela, nkirwa kivusa,
nto onatepa ovusa
Para os nossos antepassados
o calau é uma ave sem cabimento,
se comporta como o não iniciado,
malandro, sem piedade, parcial e egoísta,
torna-se um órfão/solitário,
pois jurou de não mais sabotar os enterros,
mas continua a sabotar.

Ephomopo navusa, mutthu ohiniwa yoleliwa
yàhiya nroromelo na Muluku Namuli,
khaleleya, ekhalelo aya khenarera otthara
O calau, sabotador de enterros,
é a pessoa que não segue os conselhos,
deixou de confiar em Deus Namuli,
é desobediente,
o seu comportamento não merece ser seguido.

Vari ephomopo, murima wotakhala ori vavo,
enetta mekhaya, makeya enamuhela mekhaya,
murim’aya khenattharatthariwa,
ori ntoko mwene òhilaka ni a miruku saphama.
ntoko omwene wohiwanyeya.
Onde vive o calau, há também mau comportamento,
pois anda sozinho, deita a makeya sozinho,
é como um rei que não educa bem,
é como o reino onde não há coordenação.

Ephomopo enalikana ni mutthu ohikhalano ettini.
Akhwaka khanasomeliwa.
Enlikano tho ni mutthu ohinaxekura ni enavusa eretta:
onavusa onimwívusa.
O calau é como a pessoa que não tem religião,
quando morre não se faz oração,
é semelhante também à pessoa
que não visita e sabota a doença:
quem sabota, sabota-se a si mesmo.

Ovusa wisiva. nahuwo,
ovusa okhotta osuwela.
ovusa ohisuwela sa muholo.
ovusa wiva samakholo.
ovusa oruha nthalu.
ovusa oyaviha nloko.
ovusa oruha ohiwanana vapumpani.
Sabotar enterros é matar-se,
é recusar de saber,
é desconhecer o futuro,
é matar a tradição dos antepassados,
traz discriminação e discórdia na família,
diminui o parentesco.

Ohileleya/ovusa wa ephomopo
ti mulattu mutokwene sa okhwa,
khenìwa’mo wi okhwa wòkhala, khonsempeya,
enaruna wi okhwa ti mukwaha wa Muluku Namuli,
vonvitha nokhwa vamuru vaya,
enakhotta hatá enapisiha
wi nokhwa ètteke mukwaha mutokwene,
avolowe mulako womalihera,
atthikele owani,
muniphwanyani mwa Muluku Namuli maye.
A rebeldia ou sabotagem do calau
é um problema grave em redor da morte:
não entende que a morte existe e é inevitável,
recusa que a morte é a viagem para Deus Namuli,
sepultando o morto na sua cabeça,
nega e faz atrasar que o defunto inicie a grande viagem,
atravesse a última porta e assim regresse a casa,
sim, ao útero materno de Deus Namuli.

Okhwa tthobwa: khavo ahinimphuka.
Okhwa ntthavi na Muluku.
Okhwa epula etokwene.
Okhwa ephiro ya Muluku.
Okhwa khonikhottiwa.
Okhwa khonirakamela ni atthu.
Okhwa ori mmatatani.
Okhwa nipontta na Muluku.
Okhwa mulako womalihera wa Muluku.
Okhwa olakiwa womalihera wa mutthu.
Okhwa khonuliha muru.
Okhwa khonironya.
Okhwa ovinya valaponi.
Okhwa ottimula ekwaha.
Omahiye khonathololiwa ikhulo.
Morrer é como a bebida doce:
não há ninguém que não a faz.
A morte é a rede de Deus.
A morte é grande chuva.
A morte é caminho de Deus.
A morte não se recusa.
A morte não fica longe das pessoas.
A morte está nas mãos.
A morte é hortaliça de Deus.
A morte é a última porta de Deus.
Morrer é o último conselho da pessoa.
Morrer não envergonha.
Morrer é sair no mundo.
Morrer é viajar.
No cemitério não se vira as costas.

Ohileleya/ovusa wa ephomopo
ti mulattu mutokwene sa ekumi:
erutthu kahiyene empa ya okhwa/nihiye,
mene ti empa ya ekumi,
ehunttihe ni muttembo,
wona wi ekumi eri mmwapuni.
ti muhako wakuva omora.
ti mahí: yamora khanattotteliwa.
ti ntoko mmwirini: khonakoniwa omalelaka.
ti nikula na nlusi: khannaroromeleya.
A rebeldia ou sabotagem do calau
é um problema grave acerca da vida também:
o corpo nunca é a casa da morte/campa,
mas é a casa da vida,
é preciso que não apodreça com o cadáver,
pois a vida está numa panela,
é riqueza que cai logo,
é como água: se cair, não se recolhe;
é como na árvore: não se dorme lá à vontade,
é como a casquinha do rio: não se confia muito nela.

Mpuwa mwa makholo ahu ephomopo mwapalame
onàhusiha atthu etthu ela etokotoko:
oxukurana/okhaviherana ti wivitha.
Para os nossos antepassado
o calau é uma ave que ensina à gente esta grande coisa:
visitar-se e ajudar-se é garantir-se uma sepultura.

Khapá ti òrera murima, onnaxekura,
ephomopo ti yonanara murima, khanaxekura.
Khapa onnètta ni emp’awe,
ephomopo ni mahiye a amay’aya.
Khapa t’otxentxera ni ephomopo ti yolosowa. Sa makholo sinalikana ni ekhalelo ya khapa,
sa satana sinalikana ekhalelo ya ephomopo.
Khapá ekahi ya Muluku,
ephomopo onyonyiwa wa Muluku.
O cágado tem bom coração, visita,
o calau tem mau coração, não visita.
O cágado anda com a sua casa
e o calau anda com a campa da sua mãe.
O cágado é esperto e o calau é insensato.
As coisas dos antepassados são como o cágado.
as do satanás é como o calau..
O cágado é cabaça de Deus,
o calau é a zanga de Deus.

Vowettano mahiye a amay’aya
vamuru nihiku nri nothene,
ephomoko khanttuna wàhiya amay’aya
wera epwahereke etthikele owani o Namuli,
khantthuna omwalana ni amaye,
erokhalaru ovusa, ennamuxukurela Muluku
vowona amay`aya kula nihiku,
Por andar sempre com a campa da mãe na cabeça
o calau não quer deixar partir a mãe
para que regresse a casa do Namuli,
não quer separar-se dela,
embora seja sabotador dos enterros,
agradece a Deus por ver sempre a sua mãe.

Ohileleya wa ephomopo ti okhwa.
Muru wa ephomopo ti ekhapuri awe.
Nokhwa a ephomopo khanalattuliwa.
A rebeldia do calau causa a morte.
A sua cabeça é o seu cemitério,
a sua morte não se comunica.

Ovusa mahiye onanara,
empa etokwene mahiye.
Boicotar a campa é mau,
a casa grande é o cemitério.

Namavusa onalakiwa akhweliwene.
Namavusa wamùnttela muttembo.
Namavusa ti nahuwo.
O sabotador é educado quando está de luto,
ao sabotador apodreceu-lhe o cadáver,
o sabotador é a toupeira.


3- Ephomopo ni Muluku
O calau e Deus

Boicotar os enterros além de ser um acto que infringe o princípio da solidariedade, é também um acto de impiedade, de falta de fé em Deus namúlico que faz sair tudo do seu útero materno provisoriamente para depois chamar tudo de regresso ao seu útero matriarcal. Impedindo à mãe a grande viagem de regresso ao útero namúlico, o calau torna-se ele mesmo um namuli definitivo da mãe, um substituto de Deus Namuli, a sua impiedade é extrema, pois ele se comporta como um sabotador e um inversor de todo o sistema das coordenadas da biosofia e biosfera xirima.
Contudo, típico da biosofia e biosfera xirima, o calau por ter sido gerado por Deus namúlico com as peculiaridades analisadas, tem o seu lugar no silabário da vida xirima, não foi gerado assim à toa. Deus confiou-lhe uma tarefa, o fez mestre com a tarefa de ensinar e lembrar ao mutthu o contrário do que ele é e faz. Como no estado liminal das iniciações onde tudo é permitido para que não seja feito no tempo normal, também o calau celebra na liminalidade crónica da sua existência desvalores que devem ser categoricamente evitados na vida do mutthu. A morte existe, negar a morte seria negar a Deus mesmo, a origem e o regresso para lá. Se a biosofia e a biosfera dão tanto relevo aos enterros, é porque, antes de ser a morte um imperativo categórico, é um indicativo categórico ao serviço da vida.

Ovusa etthu yonanaraxa vamaithoni vatthu
ni tho vantxipalexa vamaithoni va Muluku.
A sabotagem dos enterros é uma coisa muito má
aos olhos do mutthu mas sobretudo aos olhos de Deus.

Muluku onnìnnuwa ni ovithana:
anamwan’awe annahokolowela owani
muniphwanyani mwa pwiyamwene Namuli.
Deus cresce/vive por meio dos enterros recíprocos:
os seus filhos regressam a casa,
ao útero matriarcal namúlico.

Ephomopo mwapalame ola
vowetta ni muttembo vamuru vawe
onakhotta mukwaha mutokwene wa Muluku.
O calau é uma ave que indo com um cadáver na cabeça,
recusa a viagem grande de regresso a Deus.

Muluku onasuwela ophima sothesene,
onasuwela sothene sipattuxiwe ni yowene,
akawaka sothene ni mukhalelo awe.
Okhala wera Muluku namuku a emwali,
vanonto nihitheye ekhalelo ya ephomopo:
ti Muluku ùnnuwihale muru wa ephomopo,
èrelaka okhala mahiye a amaye aya.
ti Muluku mwanene ovahile ephomopo
ovasa ni wetta ni muttembo va muru,
wera nilakiwe phama,
nihikuxe ekhalelo ya ephomopo nari vakhanene,
nihivuse mariro ari othene,
nto nikhaviheraneke, nivithaneke,
nihipisihe okhopela wenno mukwaha womalihera,
nto nitthikele owannyawe Namuli, okhopela iwe,
vowakuveya ni ni murettele.
Deus sabe medir tudo bem, conhece tudo o que foi por ele gerado, partilhando em toda a parte a sua imagem. Sendo ele grande mestre de iniciação, portanto não devemos rir do comportamento do calau, pois foi Deus que lhe fez crescer a cabeça para que seja a campa da sua mãe, é Deus mesmo que lhe deu de sabotar os enterros e andar com a cadáver na cabeça, para que ficássemos bem iniciados, não assumíssemos o exemplo do calau, não sabotássemos os enterros, mas nos ajudássemos e nos enterrássemos mutuamente e assim não nos atrasássemos aqui nesta terra na última viagem, mas regressássemos à sua demora Namuli, na outra margem, sem demora e em paz.

Mukhw’à ùnnuwa muru à ohimutheye,
Muluku t’onvahiye sawasawa ephomopo.
Se o teu companheiro tem cabeça grande,
não rias dele: Deus é que lha deu como o calau.


4- Ephomopo ni ekristu
O calau e a Fé cristã

O calau como metáfora inserida no contexto cristão, além de ser também para o cristão um paradigma liminal de valores importantes na vida social (solidariedade), torna-se um aquétipo cristão, o protótipo transcendente que transfigura e sublima o tipo categorial.

Yesu

Yesu khakhanle navusa,
àmuxekura Maria ni Marta,
yakhweliwaya murokor’aya Lazaro.
Jesus não foi sabotador,
pois visitou Maria e Marta,
quando ficaram enlutadas do seu irmão Lázaro.

Simoni ò Kirene kahiyene namavusa ntoko ephomopo,
t’amukhavihenre Yesu otexa muttanda.
Simão de Círene não foi sabotador como o calau,
pois ajudou a Jesus a carregar a cruz.

Ephomopo muritti aya vamuruni vawe wolemelaxa,
nto Yesu àhèra: “Murweke mwa miyo
nyuwo othene munatexa muritti wolemela,
niwoko muritti aka ti woveya”.
O peso na cabeça do calau é pesadíssimo,
enquanto Jesus disse: “Vinde a mim,
vós todos carregados de pesos excessivos,
pois o meu peso é leve”.

Yesu ti ephomopo ya Watana wa nanano,
àtexa vamuru vawe, anyi, mwerutthuni mwawe
okhwa wa atthu othene,
apwahaka ni atoloxaka okhwa khuluwi.
Jesus é o calau do NT,
carregou sobre a sua cabeça,
sim, no seu corpo, a morte de todos,
superando e vencendo toda a morte de vez.

Ephomopo enìkhupanyera niwoko nokhwa àmay’aya,
Yesu arowaiye o Yerusalemu àhìkhupanyera
niwoko na ottiya maru wa Yerusalemu.
O calau lamenta-se pela morte da mãe.
Indo a Jerusalém, Jesus queixou-se
pela incredulidade de Jerusalém.

Ephomopo nihiye na maye va muru vawe
onalikana owarihiwa wa Yesu miwa mmuruni.
A campa da mãe do calau na sua cabeça
é como a cabeça de Jesus coroada de espinhos.


Mkristu ni Ekereja
Fé cristã e Igreja

Iphomopo khasinamwalamwala ehuhu yothene,
nto sinnakhala muloko mmosaru:
sinnanihusiha omusi/oyarana.
Oyarana niparimá: khannathummwa.
Yesu arene vamuttandani àhima wa amay’awe:
maye, owo ti mwan’inyu
ni wa ohuser’awe: awo ti amay’anyu.
Os calaus nunca se separam, vivem em colónia.
Com isto ensinam-nos a comunhão parentesca
que é como uma cicatriz que não se compra.
Jesus estando na cruz dizia a sua mãe:
“Mãe, este é o teu filho” ,
e ao seu discípulo: “Esta é a tua mãe”.

Wireya mahiye mwekristuni
onahima otexa mutthu ti mutthu muttand’awe.
Carregar a campa no cristianismo
significa carregar cada um a sua própria cruz.

Mwekristuni ephomopo mwapalame ola
onnàlaka atthu ehirino ettini,
anvanya masu a Muluku,
ohinakumiha edisimu,
mene atthunaka okhaviheriwa;.
No cristianismo o calau
entende criticar as pessoas sem religião,
que contradizem as palavras de Deus,
não oferecem o dízimo,
querem porém ser ajudadas.

Mukristu ahikhaleke nanvusa,
akhalaneke ikharari,
akhaleleke òxekura ni òkhavihera,
ahikhaleke nthalu mmirimani mwawe,
ahivanyeke malamulo a Muluku ni a Ikereja,
akumihe edizimu kula eyakha ni mweri
O cristão não pode ser um sabotador de enterros,
deve sentir pena, visitar e ajudar,
sem parcialidade no seu coração,
deve ser obediente aos mandamentos de Deus e da Igreja,
ser dizimista anual e mensal.

Ephomopo mukristu ohiyale nroromelo
ni ohèntte okereja.
O calau é como o cristão que perdeu a fé
e não frequenta a igreja.

Satana nanvusa mutokwene.
Satanás é o sabotador por antonomásia.


Avaliação

O aforismo acerca do ephomopo assim como todo o seu horizonte biológico desvendou toda a sua riqueza simbólica e metafórica. O calau é verdadeiramente uma metáfora fecunda, pode ser considerado o negativo fotográfico do sistema das coordenadas da biosofia e biosfera xirima:
é metáfora do casamento onde a paternidade e a maternidade são levadas aos extremos de doação e dedicação para os filhos;
é metáfora da solidariedade social, sobretudo nos momentos dramáticos e trágicos de doença e de morte que atingem a família restrita e alargada;
é metáfora da maturidade do mutthu desligado e autónomo da mãe, formula portanto uma crítica latente ao matriarcado quando se torna matriarcalismo;
é metáfora de Deus Namuli, matriarca verdadeira e definitiva, não provisória e transitória: do Namuli se sai momentaneamente para lá regressar definitivamente;
é um testemunho unívoco da centralidade da morte como evento dos eventos antropológicos e cósmicos que nunca se pode manipular, marginalizar, tornar insignificante;
é também no horizonte cristão um paradigma muito original de cristologia e de ética cristã.